Vivemos na era da colaboração? Será?

Vivemos na era da colaboração. Desde a virada do milênio, esta afirmação vem ganhando força graças às transformações que vivemos em decorrência do digital em todos os âmbitos da vida, especialmente na economia, no trabalho, na produção científica, no empreendedorismo e mobilização social.

Por paixão e ofício, participo intensamente de eventos, palestras e oficinas sobre transformação digital, assim como de grupos de discussão relacionados nas redes sociais e WhatsApp. Espaços de conexão presencial e virtual nos quais se discute muito sobre tudo que diz respeito à colaboração na atualidade e seus benefícios para a sociedade e para os negócios.

Nestes eventos ou grupos, as pessoas – conhecidas entre si ou não – criam laços e cooperam diariamente de diferentes formas: se voluntariando para alguma atividade ou projeto, compartilhando informações e vagas de trabalho, recomendando profissionais, dando dicas sobre eventos etc.

A tecnologia é sempre tida por todos como a protagonista deste processo. Mas uma coisa me inquieta nestes momentos de troca: a narrativa que credita exclusivamente à tecnologia o papel de fundadora da colaboração.

Obviamente, o desenvolvimento tecnológico impulsionou a colaboração em rede, em escala planetária e em tempo real, transgredindo limites geográficos e culturais, otimizando processos, reduzindo custos, redirecionando esforços econômicos e humanos. Enfim, a lista de todo ecossistema e das consequências da colaboração contemporânea é imensa.

No entanto, não podemos nos esquecer de que a prática cooperativa existe desde que o mundo é mundo, caso contrário, não estaríamos aqui. É como diz o sociólogo francês Michel Maffesoli nossa pulsão por “estar juntos” e agir comunitariamente é “primitiva”, portanto, não se pode achar que ela brota da tecnologia. Aliás, as próprias tecnologias só são possíveis graças à nossa histórica cultura de compartilhamento de conhecimentos e práticas.

Ocorre que à nossa essência colaborativa foram adicionadas tecnologias que agem exponencialmente, construindo interfaces híbridas e redes sociais de dimensões e naturezas inimagináveis antes do digital. Isso sim tem sido inédito.

Ouso afirmar, portanto, que, na verdade, a humanidade vive o ápice da colaboração. Um contexto histórico complexo, difícil, porém belo, em que tudo se transforma velozmente nos forçando ao permanente e diário aprendizado sobre novas formas de nos relacionarmos, de produzirmos, de trabalharmos juntos.

É justamente porque estamos no auge da colaboração que pessoas e instituições encerradas em seus umbigos não sobreviverão às mudanças em curso.

Deste modo, a tecnologia é fundamental, mas só é realmente transformadora quando nosso foco está nas pessoas, nas nossas necessidades e no potencial individual de cada um que, quando somado, faz a diferença.

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Cultura Organizacional e o valor da Diversidade

Recentemente, muitas empresas têm se manifestado em prol da diversidade e da inclusão e criado iniciativas de combate a inúmeros preconceitos.

Seus argumentos variam entre o necessário apoio aos direitos humanos e a importância da diversidade para a inovação, a economia e também para os lucros.

Esta mudança no cenário corporativo resulta da atuação histórica dos movimentos sociais, especialmente dos LGBTs, feministas, negrxs e pessoas com deficiências que há décadas reivindicam seus direitos individuais e coletivos.

Há anos estes grupos, institucionalizados ou não, vêm mostrando ao mundo o que realmente importa: que todos tenhamos uma vida digna e saudável, livre de preconceitos e violências.

Esta transformação sociocultural bebe também das transformações tecnológicas e da comunicação.

Com o digital, as pessoas estão mais informadas e conscientes de seus direitos, assim como passaram a agir em rede, a ter voz ativa e a cobrar que as empresas sejam mais transparentes e socialmente responsáveis.

Esta nova conjuntura obrigou as empresas a mudarem sua cultural organizacional.

Mas a construção de uma cultura organizacional genuinamente diversa e inclusiva não pode ficar só no discurso publicitário, nas ações de marketing. Não basta fazer memes e vídeos bacanas…

Isto seria uma apropriação indevida das narrativas dos ativistas e dos estudos sociais para “ficar bem na fita”.

É preciso assumir e disseminar os preceitos da diversidade para todo seu ecossistema interno e externo, incorporá-los no relacionamento com todos os stakeholders, assim como nos valores, objetivos e práticas cotidianas da empresa.

Portanto, uma empresa realmente diversa e inclusiva deveria, entre outras iniciativas:

  • comprometer-se com as pautas relacionadas em todas as suas ações, engajando desde sua cúpula executiva até o funcionário terceirizado;
  • educar sua comunidade interna sobre as especificidades e direitos das mulheres, negrxs, LGBTs e pessoas com deficiência;
  • garantir a empregabilidade e o desenvolvimento educacional e profissional destes públicos;
  • criar áreas específicas para a gestão da diversidade;
  • garantir que toda sua comunicação interna e externa esteja alinhada com tais preceitos;
  • apoiar e promover ações relacionadas à diversidade e inclusão na sociedade.

Na próxima sexta-feira (1º) será realizada a 1ª Marcha do Orgulho Trans de São Paulo – da qual, aliás, serei voluntária – e no domingo (3) teremos nossa 22ª Parada LGBT.

Considerando o valor (simbólico e econômico) da diversidade como um pilar da cultura organizacional atual, espera-se que as empresas que realmente apoiam a causa LGBT atuem para além do nosso calendário, nos respeitando e apoiando o ano inteiro e para todo o sempre.

Can I get an amen up in here?

 

WhatsApp: solução ou problema?

O WhatsApp é o aplicativo mais usado pelos brasileiros, segundo a pesquisa Conecta do Ibope Inteligência.

A ampla adesão ao app é resultado de seu principal benefício: facilitar a comunicação entre as pessoas.

Mas… às vezes… essa comunicação é pra lá de torta… E a culpa, no meu entendimento, não é da tecnologia…

De todos os debates em torno do uso do WhatsApp, gostaria de destacar 4 que têm me chamado a atenção recentemente.

Faço parte de alguns grupos: amigos, família, networking, jobs.

Neles, eventualmente, ocorrem desentendimentos decorrentes de práticas sociais nocivas e improdutivas. Vamos a elas:

#pré-conceito

Gente que julga e acusa os outros permanentemente, retrucando mensagens de forma agressiva.

Gente que compartilha piadas machistas, homofóbicas, racistas e preconceituosas em geral.

Gente que insulta quem pensa diferente dela. [com este cenário político então…]

#desrespeito à privacidade

Gente que dá print em conversas super privadas e compartilha tais imagens indiscriminadamente, sem pedir autorização.

Gente que compartilha áudios que eram privados, pessoais.

#disseminação de fake news

Gente que compartilha informações e notícias sem checar sua veracidade e procedência.

#despropósito

Gente que reiteradamente compartilha conteúdos alheios aos objetivos do grupo.

😒👎

A tecnologia por si só não incentiva diretamente a discriminação, o desrespeito, a fofoca, as intenções escusas…

São as pessoas que fazem isso desde que o mundo é mundo.

Por este motivo, acredito que cabe a nós refletirmos sobre nossas práticas, nos questionarmos sobre se queremos ou não contribuir positivamente com nossas comunidades, e nos conscientizarmos de que a vida digital requer alteridade, pois o potencial da rede deve ser solução e não problema.

Streaming de música: negócio digital bilionário

Pela primeira vez na história da indústria fonográfica, o streaming de música supera as vendas físicas e downloads digitais. Os dados foram divulgados nesta semana no Relatório Mundial de Música (2018) da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI).

Depois de amargar quase três décadas de declínio no faturamento, o setor finalmente tira proveito do digital e comemora.

Na virada deste século, as previsões eram catastróficas. Com o surgimento das TIC, da sua popularização, do compartilhamento anárquico dos arquivos digitais e da pirataria online, os profissionais e empresários da área não viam luz no fim do túnel.

Antes do digital, o que vendia no mundo da música era ditado pelas indústrias fonográfica e cinematográfica, pelas redes de rádio e televisão. Com a Internet, o cenário mudou incontornavelmente.

Segundo Chris Anderson, entre 2001 e 2005, as vendas totais da indústria da música caíram em um quarto!

Com a chegada do IPod, em 2001, as pessoas substituíram seus walkmans pelo MP3 Player da Apple que armazenava até 10 mil músicas, algo equivalente ao estoque de muitas lojas especializadas que, aliás, foram definhando.

De lá pra cá, passamos a consumir música de outra forma, nos libertando de certa maneira dos hits impostos pela indústria, pois a cauda longa exposta pelo digital nos presenteou com uma infinidade de opções.

Foi surfando nesta nova onda tecnológica, comportamental e comercial, que a sueca Spotify se tornou a maior empresa de streaming de música do mundo.

Um negócio digital bilionário que, em apenas 10 anos (2008-2018), conquistou um valor de mercado superior a US$ 30 bilhões.

Os dados ratificam nossa total inclinação para o consumo de bens intangíveis.

E os serviços de streaming de música ainda têm muito o que explorar comercialmente, pois segundo a IFPI, atualmente, existem “somente” 176 milhões de assinantes.

Dica de leitura sobre o universo dos negócios digitais: Cauda longa: do mercado de massa para o mercado de nicho. Chris Anderson. Editora Elsevier (2006)

Dona Ivone Lara: voz negra que nos deu felicidade

Acordei com a notícia que Dona Ivone se foi.

Esta mulher incrível não é considerada a Dama do Samba à toa, pois nasceu embalada nele pelos seus pais que, já na década de 1920, tinham uma intensa vida musical e carnavalesca.

Em quase cem anos de história, este ser de luz fez muito pela nossa cultura, pela cultura negra, mas também pelas mulheres e mais necessitados porque, além de compositora e cantora, era enfermeira e assistente social.

Em 12 de agosto de 2004, tive o prazer de entrevista-la para o programa Fala Mulher. Numa conversa de dez minutos, Dona Ivone falou sobre seu novo disco na época “Sempre a Cantar” e contou um pouco da sua história, sua relação com a família Villa Lobos, o trabalho com Nise da Silveira, além de suas parcerias no samba.

Aqui você pode ouvir a entrevista.

Reparem que eu, bobinha do alto da minha juventude inexperiente, chamava Dona Ivone de “você” e às vezes à interrompia 🤭, mas acho que ela não ligou muito… 😁

Dá o play aí! Vale a pena ouvir a voz e o jeito amável desta pessoa que respeito muito.

Aqui o disco completo Sempre a Cantar. 👇

Fala Mulher: uma história de luta pelos direitos das mulheres

Fala Mulher foi o nome do programa e da pioneira rádio online criados pela ONG carioca Comunicação, Educação e Informação em Gênero (CEMINA), na qual tive o prazer de trabalhar como repórter e produtora.

O Fala Mulher tinha o propósito de debater os direitos das mulheres e fortalecer ações para o empoderamento feminino por meio da informação.

Já o CEMINA construiu uma linda história por meio de projetos sociais focados na igualdade de gênero, entre eles: a capacitação de mulheres pelo Brasil afora em diversos temas, inclusive Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC); a criação de redes de comunicadoras e líderes comunitárias etc.

Infelizmente, a ONG não existe mais, no entanto, seu legado é ímpar e faz parte da importantíssima história do movimento de mulheres e feministas brasileiras.

 

Vida digital e a aceleração do tempo

As tecnologias digitais alteraram completamente nossa noção sobre o tempo.

Às vezes temos a sensação de que acompanhar o tempo do nosso tempo é impossível.

Mas apesar das queixas generalizadas sobre este descompasso entre vida e tecnologia, aceitamos e exploramos o tempo digital, rejeitando aquilo que não se adapta ao novo tempo.

As experiências no mobile – metade do tráfego na web – ilustram esta transformação temporal.

Ao procurarmos qualquer coisa na Internet não esperamos mais as páginas carregarem, por exemplo.

Um comportamento social que desafia as marcas.

Segundo o Google, os sites de 75% das maiores marcas brasileiras demoram 20 segundos para carregar no smartphone provocando uma experiência negativa para o usuário. E há 62% de chances deste usuário não comprar mais da tal marca com site lento.

O tempo limite, recomendado pelo Google, para o carregamento de uma página é de 5 segundos e o tempo ideal de 3.

TRÊS SEGUNDOS! É quase o tempo que você demorou para ler a frase 3 segundos! 😁

Como a tecnologia, a nossa cabeça e nosso comportamento mudaram em três décadas!

Nos anos 1990, ficávamos minutos parados na frente do PC trambolho esperando a conexão discada, o site carregar, o download e o upload… a uma velocidade de 56,6 kbps…

Uma realidade tão tão distante.

Hoje, o som do dial-up parece até um contato extraterrestre. 👇

Ao preparar uma aula, comecei a pesquisar referências sobre aqueles outros tempos e achei o Museum of Endangered Sounds, um museu digital com sons de objetos, dispositivos e softwares antigos.

Se você curte a história da tecnologia e da comunicação, vai viajar neste site como eu.

😉

8 de Março e suas “homenagens”

O 8 de Março é um dia especial. Dia em que milhares de mulheres no mundo vão às ruas para reivindicar nossos direitos e promover atividades para ratificar nossa sororidade e comemorar nossas conquistas.

Estas conquistas são fruto da luta histórica e do engajamento político das trabalhadoras, urbanas e rurais, das acadêmicas e cientistas, das feministas, das donas de casa. Todas!

São fruto da resistência combativa das mulheres negras, indígenas, lésbicas, bissexuais, transexuais que, apesar do machismo, racismo e homofobia estrutural, não se calam, enfrentam e seguem abrindo portas para si e para as outras.

Mas 8 de Março também é dia de aturarmos as acintosas e patéticas “homenagens” de algumas empresas e instituições públicas que até agora – no caso 2018 – não entenderam nada.

Chovem memes, cartazes e vídeos institucionais enaltecendo nossas “qualidades”, “beleza”, “brilho”, “resiliência nata”, “intuição”, “sensibilidade”, “alegria”, nossa capacidade de girar 500 pratos ao mesmo tempo com “sorriso no rosto”. 🙄

Recebi algumas dessas “deferências” no meu WhatsApp, mas duas em particular me chamaram a atenção: a da Secretaria da Família e Desenvolvimento Social/ Coordenação da Política da Mulher de Curitiba e o “singelo” aviso na entrada do Pão de Açúcar da Vila Suzana, em São Paulo. Ei-las abaixo:

Cílios no semáforo, senhores?
Deus nos criou meladas com mel e pitadinha de sal?

Gente… não temos mais paciência para este tipo de coisa, sabe?

Por que não se contentam em fazer o básico? Leia-se: pagar um salário decente; promover equidade salarial; respeitar a carga horária acordada e os direitos trabalhistas; garantir licença maternidade e creche; coibir e penalizar qualquer tipo de assédio e outras formas de violência; dar voz de decisão; reconhecer e valorizar nossa opinião; respeitar nosso modo de ser e de vestir; nossa tanta coisa para fazer…

Para além disso ☝, se a instituição entende ser importante fazer uma homenagem (de verdade) no dia 8 de março, dialogue com as mulheres e certifique-se de que sua “ideia brilhante” valoriza nossa luta histórica por direitos e não reforça estereótipos.

👉 A foto maravilhosa da capa deste post é da amiga fotógrafa Claudia Ferreira que há décadas registra os movimentos das mulheres no Brasil. Claudia e a jornalista Claudia Bonan são autoras do banco de imagens Mulheres e Movimentos.