Do fonógrafo para as nuvens

Outro dia uma amiga postou no Facebook esse GIF aí em cima. Tenho algumas antiguidades dessas aqui em casa.

A gente entende vai? Quem nasceu em 2000 acha que CD é uma coisa decorativa para enfeitar a fachada reciclável do Conjunto Nacional na época do natal. Mas, muita água rolou antes do Spotify, queridos jovenzitos.

Ficamos milhares de anos batendo tambor, tocando harpa e flauta, cantando de boca em boca nossas músicas e expressões culturais até que, no final do século XIX, o norte-americano Thomas Edison teve a ideia de gravar os sons emitidos por um aparelhinho recente criado, chamado telefone. Do desejo do empresário de ganhar uma grana, nasceu o fonógrafo. Depois veio o gramofone do alemão Emil Berliner. No início era tudo mecânico e, com a eletricidade, explodiu som para todos os lados.

A possibilidade de gravar e reproduzir o som, alterou completamente o modo como passamos a expressar nossa cultura musical e cinematográfica. É claro que o invento era aproveitado pelos abonados dos países ricos da época, mas o auê era tanto que logo, logo deram um jeito de popularizar seus produtos.

Quando o rádio chegou na primeira metade do século XX, as músicas invadiram nossas casas. OK. Tem todo o papo da indústria cultural que nos empurrou goela abaixo a música norte-americana e europeia, mas não fosse isso gente, não teria Nina Simone nem David Bowie, então menos.

O acústico virou elétrico, depois do mono veio o estéreo, e o que era gravado em um só canal de áudio, ganhou vários. O vinil (LP) e o toca-discos bombaram em muitas rotações e quebradas de agulhas até a chegada da Fita K7 e do CD com o poperô. Os aparelhos mudavam constantemente. Você mal tinha terminado de pagar seu MicroSystem e saía o Walkman.

Enquanto esse mafuá tecnológico acontecia, a pretensa distinção entre o que é clássico e popular miou, ainda bem. Veja bem, não estamos falando de gosto musical, mas dos julgamentos preconceituosos sobre que é ou não cultura. E cá entre nós mesmo quem reclama dos gostos musicais dos ‘outros’ se acaba no Karaokê cantando Wando.

Na década de 90, o vinil e o K7 sumiram das prateleiras das Lojas Americanas, e a gente só queria saber do CD e depois do DVD. Até a internet… Quando o digital chegou, quem tinha computador e conexão podia fazer o download das músicas no Napster para o desespero da indústria fonográfica.

O som captado e transformado em 010101 invadiu os computadores em todo mundo pelas redes telemáticas. Na sequência, com o Big Data e Cloud Computing, surgiram os serviços de música streaming e podcast, tecnologias que, mais uma vez, alteraram a forma como ouvimos, produzimos e compartilhamos música.

É claro que ainda há quem prefira sintonizar seu aparelho de rádio ou smartphone para ouvir sua rádio musical favorita, mas… ter a possibilidade de montar suas próprias playlists, organizadas por gênero, artistas, etc., poder ouvi-las de todos os seus gadgets on ou off-line, de acordo com o seu mood, não tem preço.

Mas para a molecada do GIF que acha a fita K7 uma coisa antiquíssima, é legal saber que tudo tem história e que o Spotify não é tão novo assim. Ele começou a ser desenvolvido pelos suecos em 2006 e foi lançado dois anos depois. Faz as contas… já se vão dez anos! E assim como o Napster, neste período, o Spotify enfrentou muitas brigas judiciais pelos direitos sobre as obras em vários países, mas logo a indústria fonográfica se aquietou e até concedeu à empresa os direitos sobre a gestão de suas produções musicais.

A gente saiu do fonógrafo para chegar nas nuvens! Essa experiência é maravilhosa, e quem até agora não entendeu e ainda está brigando com a tecnologia e as formas como a exploramos, não sabe o que está perdendo.

 

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O que deu na telha dos editores da Caras?

O debate sobre a questão da imagem nos estudos sobre comunicação, arte, filosofia etc. sempre foi acalorado. Há quem critique as formas de reprodução e manipulação da imagem com o argumento da deturpação da realidade. Ou quem as valorize afirmando serem, na verdade, a expressão dos distintos pontos de vista ou da própria realidade que, em si, seria questionável.

Desde a década de 40, quando da criação dos softwares, esta discussão foi ficando mais interessante. Lá por 1990, com o desenvolvimento da linguagem programada, surgiram os primeiros editores gráficos ou editores de imagem que revolucionaram a forma como criamos nossas expressões artísticas e de comunicação. Dizem que o Photoshop é um programa mais usado atualmente no mundo. E as empresas de comunicação, jornalísticas ou de qualquer outro gênero, não vivem sem ele.

Objetos, produtos, pessoas, paisagens, tudo, absolutamente tudo pode ser alterado por meio desses programinhas tão amados pelos designers, fotógrafos, etc.

Todo mundo sabe disso, mas finge não saber quando quer desesperadamente consumir aquele sanduíche delicioso do anúncio do jornal ou deseja ter o corpo daquela moça da revista.

A verdade é que a gente gosta de manipular e consumir imagens manipuladas e ponto final. A gente quer é ‘embelezar’, mas por que? Qual nosso propósito?

Estamos tão acostumados com a estética forjada pelos meios de comunicação que, quando nos deparamos com a capa da Caras, sentimos um estranhamento desconfortante, pois ela acentua nosso ímpeto de rejeição àquilo que supostamente não seria fidedigno à ‘realidade’.

Este case, sem dúvida levanta questionamentos sobre o profissionalismo na mídia, compromisso com a verdade de um fato, suas lógicas de operação, etc. Além de debates interessantes sobre a questão da imagem, suas implicações, relação sociotécnica, percepção, etc.

É óbvio que aquela imagem, manipulada, revisada, aprovada e distribuída para todas as bancas, cafés e salões de beleza do país, é aberrante. Mas cá entre nós, aquilo que a Caras vende muito bem há mais de duas décadas, na sua opinião, é o que? ‘Real’?

Aí eu pergunto o que deu na telha dos editores da Caras? Enquanto eles não abrem o bico, não é possível saber, mas… tenho certeza de que quando a Cecilia Giménez souber vai morrer de inveja. Não sabe quem é a famosa Cecilia Giménez? Como assim??? Dá um Google. 😉

Deixem o povo passar!

Uma grávida de seis meses foi chutada por um policial. O bebê felizmente passa bem, mas a moça quebrou uma costela. Seu crime? Lutar contra o absurdo aumento da passagem de ônibus, metrô e trem na cidade de São Paulo.

Ainda renovávamos nossos votos de esperança de um ano melhor, quando, na surdina, os governantes de SP anunciaram que a passagem daria um salto inflacional de R$ 3,50 para R$ 3,80. Para quem ainda não fez as contas a gente ajuda. Em 2013, o preço da passagem na cidade era R$ 3,00. De lá pra cá, portanto, houve um aumento de mais de 26%!!! Um reajuste acintoso que acomete a vida de todos os trabalhadores, em especialmente as mulheres e os jovens, cujas vidas são marcadas por outras formas de violência institucional como a tripla jornada de trabalho, deslocamento com seus filhos, inflação galopante, informalidade, desemprego, etc. A maior parte dos trabalhadores vive na periferia das cidades e, muitas vezes, precisam pegar vários ônibus, metrô e trens para chegar ao trabalho e voltar para suas casas. Este aumento gerará um impacto enorme no bolso das pessoas.

Para onde vai este dinheiro? Para melhoria do transporte ‘público’? Difícil de acreditar…basta ver as promessas-ioiô do Estado paulista… Entra ano e sai ano, é “vou expandir”, “não, não vou mais expandir”. Ninguém aguenta, por isso vai às ruas.

Assim como em 2013, as manifestações públicas estão sendo reprimidas com uma truculência policial inaceitável, autorizada pelos governos paulistas que, cinicamente, vêm à público dizer que não houve abuso. Na violência policial tem de tudo: bala de borracha, bomba de efeito moral (para quem não acha isso extremamente perigoso, clique aqui e conheça a história de Gustavo), cassetete, provas forjadas contra os jovens, além dos asquerosos assédios contra as meninas. Veja os relatos dos manifestantes de terça, dia 12 de janeiro aqui e dos jornalistas agredidos, aqui. As redes e dispositivos digitais foram, mais uma vez, aliados, sem eles não seria possível saber o que realmente aconteceu. Vi vários vídeos, mas este aqui mostra bem quem é quem naquilo que chamam de “vandalismo”.

Eles perderam a vergonha. A desfaçatez não acontece só em São Paulo… Nesta semana, o governo do Rio de Janeiro anunciou que a população será proibida de usar a rede de transporte durante as Olimpíadas. Oi??? Aliás, por lá as passagens aumentaram também.

Onde isso vai parar? Certos governantes passaram do limite faz tempo. E eles querem mais. Querem legalizar a repressão para deleite daqueles que volta e meia vão às ruas com saudade da ditadura.

Que tipo de democracia é essa em que vivemos que chuta a barriga de uma mulher grávida? Que fratura ossos de um povo que só quer seu direito de ir e vir garantido? Transporte público de qualidade para todos é um direito constitucional que deve ser garantido pelo Estado, assim como o direito à manifestação pública. Não podemos aceitar ser reféns de meia dúzia de empresários sedentos por lucro.

Pelo visto teremos muito o que protestar neste 2016. E não será só pelos 3,80…