O machismo estupra todo dia

Ilustração do artista Matheus Ribs.
Ilustração do artista Matheus Ribs.

Infelizmente, ser mulher é saber, desde muito cedo, que você será assediada e violentada de alguma forma, em algum momento da vida. Todas nós temos uma história para contar. Sem distinção. Algumas temos força para reagir e gritar, outras não… porque o assédio e a violência machista e misógina são tão asquerosos que, por vezes, chegam a nos paralisar.

Neste feriado, fiz um passeio com minha irmã e pegamos o metrô para voltar para casa. Ao entrar no vagão nos deparamos com dois grupos de homens, com uniformes de trabalho e um time de futebol, que se juntaram e começaram a assediar as meninas que lá estavam: um casal de lésbicas, nós e, especialmente, uma moça que estava de saia. Eles cantavam para o casal um funk cujo conteúdo era algo do tipo: “senta aqui na minha piroca pra você ver”. Em um dado momento, eles cercaram a moça de saia que se incomodou e foi para outra porta do trem. Foi quando um deles foi na direção da moça, tentando encostar nela, naquele tipo de movimento corporal nojento que o homem faz quando quer encontrar o pau na gente. Minha irmã e eu intervirmos. Deu-se início a uma briga. Gritávamos que eles deviam respeitar as mulheres, que eles eram agressores e covardes. A briga esquentou e eles tentaram vir para cima de nós. Foi quando as outras meninas, também assediadas, fizeram uma roda para nos proteger. Os homens do vagão? Ficaram quietos, só olhando. O trem parou, fizemos um escândalo, e rapidamente cinco seguranças apareceram, inclusive uma mulher. A briga continuou, eles nos separaram, mas os machos agressores ficaram bem quietinhos num canto, com a cabeça baixa, falando fino. Toda aquela virilidade se transformou rapidamente em vitimização, disseram que éramos loucas. O metrô registrou o ocorrido, fichou os canalhas para uma sindicância interna que agora têm seus nomes, RGs e fotos.

Não há qualquer diferença entre aqueles homens do metrô e os 33 seres abjetos que estupraram a moça no Rio. Todos os agressores agem movidos pelo machismo, pela ideia de que nós mulheres devemos servi-los e somos culpadas por existirmos. Trata-se sim de uma cultura do estupro para a qual parte da sociedade fecha os olhos.

É importante que a sociedade entenda que não são só os homens da rua e de casa – aliás, os maiores autores da violência física e sexual no mundo – que nos violentam.

Quando lideranças políticas fundamentalistas impedem o debate sobre gênero nas escolas e espaços públicos, eles nos violentam.

Quando criam projetos que impedem o acesso ao aborto, mesmo em caso de estupro, e à pílula do dia seguinte, eles nos violentam.

Quando um deputado diz publicamente que não estupraria uma deputada porque ela não merece, e sai impune, ele nos violenta.

Quando um ministro recebe em seu gabinete um estuprador confesso para dele ter ideias para a educação no Brasil, ele nos violenta.

Quando a mídia vende que o modelo ideal de mulher é aquela “bela, recatada e lar”, ela nos violenta.

Quando a sociedade estigmatiza as putas, ela nos violenta.

Quando negam os direitos das lésbicas, trans e travestis, nos violentam.

Quando os religiosos querem controlar nosso corpo e sexualidade, eles nos violentam.

Nos violentam a todas!

No Brasil, uma mulher é estuprada a cada TRÊS horas! Este dado é somente dos casos registrados no 180.

Enquanto este crime hediondo ocorrer, não teremos paz.

Enquanto não tivermos paz, vamos lutar, com as armas que forem necessárias.

#EstuproNUNCAMais

#EstuproNaoÉCulpaDaVitima

#PeloFimdoMachismo

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