Uber: cuidado, meu amigo, não vá perder por aí…

Quando os aplicativos de táxis chegaram ao mercado brasileiro, muito se discutiu sobre seus impactos na vida dos taxistas e cooperativas. Após alguma grita sobre quem ganharia mais, empresas desenvolvedoras dos apps, do transporte privado e assim como o poder público se ajustaram, visto que a popularização dos aplicativos era incontornável, assim como seria estúpido ignorar seu potencial comercial.

A paisagem mudou. A cena de alguém esticando os braços e gritando “táxi” na rua virou raridade.

Após alguns anos do reinado da Easy Taxi e 99 Taxi, o Uber chegou ao Brasil em 2014 para engolir este mercado. E, assim como em outros países, suas consequências têm ultrapassado a razoabilidade do debate público sobre mobilidade e melhorias no transporte.

Motoristas e passageiros violentados, carros destruídos, manifestações nas ruas etc. Por aqui tem até ameaça de morte. Brazil, such a peaceful country… #sqn

Afora o debate sobre as implicações políticas e econômicas em torno do aplicativo – questões, aliás, sobre as quais não tenho propriedade para análise – existem outras que motivaram este post: segurança e direitos trabalhistas.

Aderi ao app somente em maio deste ano. Relutava porque achava estranhos os relatos de amigos que afirmavam que, com o Uber, economizavam metade daquilo que gastariam com táxi. Pensava “alguém está perdendo nessa história… e acho que é o trabalhador”. Batata.

Todas as [poucas] vezes que usei o aplicativo puxei papo com os motoristas. Seus perfis eram diversos e a maioria tinha outro trabalho ou estava desempregado. O discurso geral era: “estou fazendo um bico” ou “estou nessa até achar outro trabalho”. Um deles chegou a dizer que alugava o carro em uma locadora, mas jurou que conseguia tirar o dele.

A Uber fica com 25% de todas as corridas e com os 75% restantes, este trabalhador terá que custear taxas, impostos, pedágios, manutenção e troca do carro, combustível, balinhas e copinhos d’água etc. Tudo pelo satisfação do cliente! ¬¬ E a pulga atrás da minha orelha diz que vai sobrar muito pouco para o trabalhador…

“Uber: A forma mais fácil de se deslocar com o toque de um botão”

Mais ou menos. Se você souber o trajeto, pode até ser. Porque a maioria dos motoristas não sabem chegar a lugar algum sem o Waze por um fato muito simples: eles não são motoristas! Se o Waze travar e você não souber o caminho, amigue, fatalmente irá se atrasar, se irritar, se constranger e até perder compromissos.

Nesta sexta, peguei o Uber. Tinha uma reunião na Avenida Paulista, que fica a 2 km e 5 minutos de carro da minha casa. Pois bem, demorei 20. Distraída no celular, não percebia que o moço seguia fielmente o caminho indicado pelo Waze que sugeria uma volta pelo centro em 80 dias. Reclamei e o moço mudou o rumo com minhas orientações.

A questão é que isso acontece em 80% das corridas que, aliás, não deveriam se chamar corridas, mas sim gincanas, pegadinhas do Faustão, qualquer coisa.

Então, followers, #tips:

  • Não sabe o caminho? Não vá de Uber.
  • Está com pressa? Não vá de Uber.
  • Bebeu? Não vá de Uber.
  • Quer relaxar? Não vá de Uber.
  • Quer segurança? Não vá de Uber.

Até que essa coisa se resolva vai demorar, e prefiro não pagar mais para ver.

Sou entusiasta do digital e seus benefícios para vida social, mas é preciso fazer pressão para que a Uber:

1) Seja transparente quanto suas políticas de proteção ao trabalhador que, até onde entendi, são 0.

2) Garanta a segurança e o conforto dos passageiros.

Enquanto as tretas não se resolvem, e você se perde por aí com seu amigo Uber, quem sorri até a orelha são as empresas de cartão de crédito que nunca na história deste país ganharam tanta grana, porque como é fácil demais gastar com essa brincadeira… Watch Out!

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Recorders Eyes

Escrevendo um artigo sobre tecnologia, relacionamento virtual, selfies e imagens digitais me lembrei de um episódio da série britânica Black Mirror. Pois é… como meio mundo sou viciada em séries (e filmes), especialmente de tecnologia, cultura hacker, geek, HQ etc. Logo menos escrevo sobre…

Mas este post é sobre o episódio The Entire History of You da primeira temporada da Black Mirror, disponível no Netflix (Amo!). Ele retrata uma cidade com as características de uma metrópole comum, mas com um detalhe: a alta hibridização humano-tecnologia.

No futuro retratado, as pessoas registram em suas memórias todos os momentos de suas vidas por meio de um dispositivo chamado grain, implantado atrás da orelha. Com um controle conectado ao dispositivo, elas podem recuperar e assistir as imagens captadas pelos próprios olhos ou ainda projetá-las em qualquer superfície como na parede da sala ou em outro dispositivo eletrônico como TV ou computador, por exemplo.

Completamente naturalizada pela população, tal tecnologia permite às pessoas reviver momentos prazerosos, deletar os indesejáveis ou ainda serve como mecanismo de controle da vida social sob o pretexto da segurança e transparência.

Em uma passagem do episódio, o personagem Liam Foxwell, ao fazer um check-in no aeroporto, é solicitado pela autoridade de segurança a projetar em um computador toda sua memória nas últimas 24 horas. Somente após a inspeção das imagens vividas naquele período, o homem é liberado para embarcar.

Assustador? Maybe.

Pura ficção científica? Não. Aliás, a concepção ordinária sobre o que seria “ficção” padeceria, segundo Donna Haraway, de uma “ilusão de ótica”, visto que aquilo que denominamos ficção científica seria resultado concreto da realidade social, uma vez que a ciência se antecipa ou projeta nossas ideias.

Em 2015, Google, Samsung e Sony patentearam wearable gadgets muito próximos da realidade futurística da série britânica. Os projetos das empresas consistem em lentes óticas inteligentes, ajustáveis aos olhos humanos, integradas a outros dispositivos eletrônicos e com capacidade de fotografar e filmar tudo o que a pessoa vê. Ou seja, em breve, deixarão de ser protótipos e, assim como os Oculus Rift, Gear VR, HoloLens, Google Cardboard etc., vão ser as grandes novidades das próximas feiras de tecnologia como a CES. Aliás, até pouco tempo, houve quem achasse esses “brinquedinhos” aí coisa de ficção científica…

Alguém pode falar “aí é demais, isso não vai pra frente”. OK. Óbvio que alguns projetos não “pegam” como o Google Glass, por exemplo, que miou depois que as pessoas panicaram com os casos de invasão de privacidade nos EUA, forçando o recuo do Google. Mas ninguém é tolo o bastante para achar que Google, Samsung e Sony investiram milhões nestes projetos à toa né?

A verdade é que o avanço tecnológico é incontornável e nós sempre nos agarraremos a ele, no matter what, para desespero dos tecnofóbicos.

Foi assim com a realidade virtual e a realidade aumentada que agora são exploradas pelas empresas de jornalismo, profissionais de medicina, instituições de ensino, produtores de eventos e, principalmente, pela indústria dos games.

Como será o futuro quando tivermos olhos-câmeras, adaptáveis e interagentes com nosso organismo, conectados à internet e outros dispositivos registrando tudo que vemos e fazemos?

Em breve, saberemos. Se vai ser bom ou não aí é outra coisa…