Nem tudo que é roxo é ficha-suja

A tecnologia não é [nunca foi] algo externo ao ser humano. Atualmente, inteligência artificial, algoritmos e dispositivos mostram-se superiores às capacidades e limitações humanas, mas não podemos esquecer que, para nascerem e se desenvolverem, dependem de nós.

No final da semana passada, me entusiasmei com o projeto Vigie Aqui do Instituto Reclame Aqui, um plugin que, quando baixado no Google Chrome, identifica políticos tidos como fichas-suja com uma tarja na cor roxa. Dado o cenário político que vivemos, imediatamente instalei a extensão no meu note.

Nesta segunda (12), navegando no LinkedIn vi o nome do amigo publicitário Marcelo Aguiar marcado com a tarja roxa e pensei: “que estranho”. Passei o cursor na tarja e abaixo dele um boxe se abriu com uma foto e dados de um homônimo. Hoje (14) aconteceu a mesma coisa com o amigo advogado Fernando de Freitas Leitão Torres que, nas redes sociais, se identifica somente como Fernando Torres. Avisados, ambos estão estudando medidas jurídicas cabíveis.

O “mundo virtual” não está dissociado do “mundo real”. No “mundo real”, frequentemente, vemos notícias sobre pessoas que enfrentam problemas com a justiça – e até são presas – por serem confundidas com homônimos que infringiram leis e cometeram crimes. Os idealizadores e executores do projeto Vigie Aqui não consideraram esta possibilidade? Têm ideia de que podem causar danos morais para estas pessoas?

Sou entusiasta da tecnologia digital, acredito que ela traz benefícios para a sociedade, entre eles o acesso à informação que contribui com a efetividade da transparência nas relações sociais, econômicas e políticas. No entanto, não basta ter boas ideias e intenções.

O digital é tão ou mais complexo que o “mundo real”, portanto, é preciso ter uma visão sistêmica, checar todas as controvérsias deste tipo de projeto, caso contrário, algo que seria de utilidade pública pode se converter em prejuízo para os principais interessados: a população.

Pensamos melhor coletivamente, a inteligência “artificial” idem. Não basta criar coisas que “pensam” sozinhas. Precisamos que o desenvolvimento tecnológico e seus projetos tragam soluções para nossos problemas e não o contrário.

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