Amiga, se for assediada, deixa pra lá. É Carnaval. #SQN

Órgãos governamentais têm a obrigação de fazer uma comunicação pública efetiva que informe a população sobre seus direitos e deveres, assim como esclareça seus passos, prestando conta de cada centavo que gasta do dinheiro público. Esta comunicação deve ainda servir para consultar a população antes de realizar intervenções importantes na cidade e na sua legislação. Em democracias mais maduras, a comunicação pública também incorporou à sua missão o dever de conscientizar a população sobre os direitos humanos como estratégia para eliminar toda forma de violência e preconceito.

Sem dúvida, as redes sociais têm contribuído para o fortalecimento da comunicação pública no mundo. No entanto, diferentemente do que muitos por aqui acreditam, atuar nas redes sociais institucionais exige conhecimento, consciência e profissionalismo. Comunicar nas redes não é fazer um meme engraçadinho para gerar alcance e like.

Nesta quarta, 22 de fevereiro de 2017, a Prefeitura de São Paulo lançou em seu Facebook a campanha #CarnavalSemAssédio que deveria conscientizar a população sobre a violência contra as mulheres. Deveria… Mas, no lugar disso, fez a seguinte “arte”:

carnaval sem assédio

Agora, analisem comigo (só precisa de um cérebro não machista para entender):

O Já acabou, Jéssica! faz menção a um vídeo de duas estudantes brigando que viralizou em 2015 [que coisa feia mulher brigando! aiaiai!] e o Briga estraga a folia. Agora é paz, amor e carnaval! sugerem que a mulher, caso seja assediada na folia, não brigue e “deixe pra lá”.

“Brincadeirinha” tipicamente machista dessas que aturamos todo dia, em especial, no Carnaval quando os foliões – coitados – não conseguem se controlar e ignoram o nosso não porque aprenderam assim numa campanha de cerveja.

Quando terminar o Carnaval pergunte para suas vizinhas, irmãs, primas, tias, amigas e companheiras se elas presenciaram ou sofreram assédio/violência “em paz” nos bloquinhos da vida.

Aos comunicadores da Prefeitura de São Paulo que não sabem muito bem o que é assédio, assim como não entendem que o silêncio só piora nossa condição de violadas, indico a leitura do Guia didático da diferença entre paquera e assédio pra você não ser um canalha no Carnaval feito pelas maravilhosas da Revista AzMina. Vai que dá tempo de criar outro meme para a campanha #CarnavalSemAssédio.

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PewDiePie? No funny! Pergunte ao Google…

O caso do Youtuber mais bem pago do mundo, o sueco PewDiePie, certamente servirá de exemplo. De péssimo exemplo. Espero.

Como muitos Millennials, o “comediante” Felix Arvid Ulf Kjellberg se apropriou muito bem da tecnologia, compreendeu as potencialidades do digital, angariou fãs (53 milhões…) com seus vídeos de “humor”, se tornou um Digital Influencer. Um Midas Digital disputado por agências, mídias e empresas que faturava mais de US$ 24 milhões por ano em publicidade.

Mas… em alguns de seus vídeos nada havia de ouro muito menos ideias brilhantes, e sim mensagens nazistas e antissemitas. Logo após ser dedurado pelo The Wall Street Journal, Pew perdeu, numa tacada, os patrocínios e apoios da Disney, Google e You Tube.

Alguém vai dizer: “Tá vendo! Só tem porcaria na internet!”. Eu tiraria o “só”. Tem futilidade, discurso de ódio, injúria etc. sim, mas também tem um mundo de informação, conhecimento, cultura e entretenimento não preconceituoso.

Para o filósofo Gianni Vattimo, até meados do século passado, nossa vida estava encerrada em comunidades limitadas pelas geografias, leis e histórias produzidas e contadas somente pela elite (religiosa, política, econômica). O autor sugere que foram os mass media que romperam com tal hegemonia, permitindo que o povo conhecesse novos mundos e culturas. Apesar de otimista, o pensador reconhece que os interesses comerciais e políticos midiáticos, por vezes, contaminam a notícia…

Sou da turma de Vattimo e prefiro acreditar que o digital serve menos para os Pews e pewpetes da vida e mais o desenvolvimento sociocultural.

Nesta controvérsia digital, ainda que os gigantes da tecnologia (e da mídia) apostem milhões em Influencers com ideias duvidosas, eles também investem em campanhas em prol dos direitos humanos ou ainda se posicionam contra absurdos de nosso tempo como a autocracia discriminatória e excludente de Trump.

Se é só marketing em vez de real consciência social e histórica não sabemos, mas que, ao menos, sirvam de exemplo para parte da mídia brasileira que insiste em contratar falsos talentos como humoristas misóginos e homofóbicos, e jornalistas racistas que, definitivamente, depreciam nossa profissão.