Assistentes virtuais: uma realidade incontornável

“A ficção científica vem a ser apenas (…) a extrapolação da própria cotidianidade”. Jean Baudrillard1

Relevantes autores garantem que, historicamente, as artes profetizam os rumos da hibridação entre seres humanos e tecnologia.

Salvo certos exageros, alguns roteiros cinematográficos recentes têm sacramentado o que parecia só “ficção”. Gosto particularmente de um deles: o premiado Her de Spike Jonze que, em 2013, abalou o mundo acadêmico e imaginário social ao dar “vida” à assistente virtual Samantha.

Quatro anos se passaram após Her e cá estamos às voltas com dispositivos/softwares falantes inteligentes: os próprios smartphones, Waze, Siri, Cortana, Echo etc. Mesmo quando não queremos. Outro dia, conversando com meu amor em casa, disse a palavra “Então”. Eis que o Google Now fala roboticamente: “Então. É. Natal.” Sim, é vero. Só faltou a Simone se materializar na minha frente. Esta realidade tem sido bastante criticada por quem entende que a tecnologia está “invadindo” demais nossas vidas.

Mas, por que os comandos de voz estão em alta?

Obviamente, este questionamento é complexo e exigiria reflexões proporcionais que não caberiam em nesta nota. Mas… penso em algumas pistas.

Nossos corpos e sentidos são em si pura tecnologia. Operam a partir da combinação de uma infinidade de acontecimentos mecânicos e sinais elétricos, adaptáveis e estimulados constantemente pelo meio em que vivemos.

A fala, por exemplo.

Lucia Santaella afirma que somos “fruto de um longo e gradativo processo que já teve início quando a espécie humana ascendeu à sua posição bípede, de um ser que gesticula e fala. As primeiras tecnologias sígnicas, da comunicação e da cultura, já foram a fala e o gesto. Não obstante sua pretensa naturalidade, a fala já é um tipo de sistema técnico, quase tão artificial quanto um computador”.2

E o som que vem da fala não seria uma mera onda mecânica, mas algo capaz de carregar consigo e propagar toda nossa carga emocional e cultural coletiva3. Por isso, a conjunção entre fala e audição teria um potencial perceptivo tão grande.

Igualmente em relação à intersecção entre visão e fala. No início do século passado, Walter Benjamin já anunciava que a profusão das imagens incrementada com a fotografia e o cinema alteraram nossos sentidos, pois “o olho (…) pode manter o passo com a fala”.4 Agora pense sobre o sentido desta afirmação no contexto contemporâneo das imagens e assistentes virtuais…

Ao questionarmos/criticarmos a tecnologia, precisamos lembrar de que as coisas não brotam do nada. Elas têm uma história sinérgica, pois gente e tecnologia se implicam mutuamente, trocam conhecimento e se aprimoram desde que o mundo é mundo.

Não é à toa que os gigantes da tecnologia têm investido pilhas de dólares em seus projetos de I.A., IoT e comando de voz. O Google, por exemplo, aposta que “a próxima revolução da indústria vai ser impulsionada pela combinação de marketing e machine learning e que os comandos de voz serão uma das principais formas de interação entre gente e coisas. Seu Assistente já “enxerga” e “compreender” o mundo ao seu/nosso redor.

Esta e outras empresas – compostas por batalhões de cientistas, analistas, profissionais de comunicação e marketing etc. – conhecem e exploram bem os pontos de contato entre nós e os dispositivos e é assim que empreendem e constroem seu império comercial.

Ainda que este processo seja assustador, e sim mereça críticas, reflexões e melhorias, ao observar as revoluções tecnológicas em curso, sempre penso na afirmação certeira de Donna Haraway: “a fronteira entre a ficção científica e a realidade social é uma ilusão de ótica”.5

Dicas de leitura:

  1. BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. – São Paulo: Perspectiva, 2015.
  2. SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. – São Paulo: Paulus, 2003.
  3. PERNIOLA, Mario. Do sentir. – Lisboa: Editora Presença, 1993.
  4. BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. – Porto Alegre: Zouk, 2014.
  5. HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: TADEU, Tomaz (Org. e Trad.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. 2.ed. – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.
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Autor: rackmelo

Mestra em Ciências da Comunicação (ECA/USP), pesquisadora de tecnologia digital e sociabilidade no Centro Internacional ATOPOS e Coordenadora de Inteligência na FSB Comunicação.