Vivemos em uma cidade digital?

O que vem à mente quando você ouve a expressão: cidade digital?

Uma cidade digital resulta da relação frutífera entre tecnologia, indivíduos, empresas e governos. Nela, desenvolvem-se projetos e experiências que deveriam: democratizar o acesso à tecnologia e à informação; facilitar a vida dos cidadãos e seu acesso aos serviços públicos; otimizar os gastos dos recursos públicos; diminuir a burocracia; inspirar a criação de políticas públicas mais eficientes, garantir a transparência na administração pública etc.

Em que pé estaria nosso Brasil neste contexto? Confesso que não tenho conhecimento suficiente para fazer esta análise, mas sabe-se que ocupamos a 72ª posição no ranking no Global Information Technology Report (2016) do Fórum Econômico Mundial.

Infelizmente, a gente pode sentir este atraso nas situações mais ordinárias do nosso cotidiano. Veja minha experiência que inspirou esta lamúria.

Caí na roubada de esquecer de pagar o IPTU de 2018. No início do mês, recebi da Prefeitura de São Paulo o bendito boleto, que ficou rodando como feno pela casa. Tomei vergonha ontem e decidi pagar, mas… a saga foi grande.

Dia 1

  • Tentei pagar no app do banco, mas foi notificada que a operação não era possível, pois a data tinha vencido. O feedback do app dizia: “vá ao caixa na agência”.
  • Saquei o $, fui até minha agência, enfrentei fila, quando cheguei na atendente fui informada de que só poderia pagá-lo em bancos públicos, e aquele não era o caso.
  • Fui ao primeiro banco público, enfrentei fila e o “sistema” caiu.
  • Fui ao segundo banco público, não tinha fila, mas fui informada que o IPTU de São Paulo agora só se paga diretamente no caixa eletrônico porque a Prefeitura acabou com os convênios com os bancos para este tipo de transação, mas…, para isso, precisaria emitir a 2ª via do documento pela internet.
  • Voltei para casa, entrei no site da Prefeitura e, para emitir a 2ª via, precisei preencher um cadastro e criar uma senha. Mas… a senha é bloqueada e só é liberada se você vai a uma unidade da Prefeitura.

Dia 2

  • Fui à subprefeitura, peguei outra senha, fui no guichê, desbloqueei a senha, os atendentes emitiram a tal 2ª via, mas não no valor total como que eu queria, mas em 10 vezes, porque o sistema inteligente deles só “permite” assim.
  • Fui na Caixa Econômica Federal, o único banco público que recebe o pagamento do IPTU após o vencimento por aqui. Paguei o troço e me livrei. Ufa!

Daí eu pergunto: Por que, em 2018, a cidade dita a mais bem desenvolvida do país impõem aos cidadãos tanta burocracia? Por que tanta desinformação? Por que não podemos acessar os serviços públicos de uma maneira fácil e rápida? Quanto dinheiro e tempo se gasta com este tipo de gestão? Aliás, nosso dinheiro (leia-se: impostos) está sendo aplicado em projetos que realmente tornem as cidades digitais?

Recentemente, a jornalista Juliana Carpanez publicou uma reportagem no UOL em que narra como a Estônia, na região báltica da Europa, vem explorando inteligentemente a tecnologia para melhorar a vida de sua população e incrementar as ações governamentais, tornando-se, assim, um país digital, que ocupa a 22ª posição no tal ranking do Fórum. Por lá, 99% dos serviços públicos estão disponíveis online, quase 98% das pessoas têm um único documento e cartão digital, que integra suas vidas on e off-line. Com ele, elas podem: fechar contratos, realizar transações bancárias, acessar o histórico médico, pagar taxas, votar. Quantos anos demoraremos para chegar lá?

PS:

  1. A propósito, sobre o conceito Cidade Digital, sugiro a leitura das obras do professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), André Lemos.
  2. A foto da vista da Bela Vista (SP) foi tirada do Edifício Copan por Júlio Boaro.

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