Vídeo: o futuro do mundo digital?

O vídeo é o futuro do digital. A sentença tem sido polinizada pelos especialistas e profissionais deste “novo” mundo. Outro dia, participava de um curso sobre redes quando o assunto surgiu.

Os companheiros da sala ensaiaram muitas respostas para o fenômeno: “nosso tempo está curto demais e as pessoas preferem os vídeos”; “queremos o vídeo por praticidade”; “isso só acontece porque somos impacientes”; “ninguém lê mais nada, querem [os outros] vídeo porque são preguiçosos”; “as pessoas não sabem mais escrever, escrevem garranchos por causa disso” etc. Compreendo o burburinho em torno do tema, mas peço licença para ponderar algumas controvérsias sobre ele.

Na virada do século, a conexão à Internet era restritiva em termos de banda e acesso aos dispositivos. Éramos apenas 414 milhões de conectados. Nestas quase duas décadas, o exponencial desenvolvimento tecnológico permitiu que meio mundo se conectasse. Com as mudanças nas formas e velocidade de transmissão de dados, hoje podemos acessar conteúdo em diferentes formatos.

(Parênteses)

Particularmente, acho ótimo que não tenhamos parado no tempo do teclado e do “jogo da cobrinha” no Nokia 3310.

(Fecha Parênteses)

Portanto, não é à toa que os vídeos se tornaram a mina de ouro dos produtores de conteúdo, sejam empresas, coletivos ou indivíduos. Vivemos um processo até que os vídeos fossem produzidos e consumidos por milhares de pessoas. Esta experiência tem gerando uma receita até pouco inexplorada.

O e-Marketer prevê que, nos EUA, os investimentos em produção de vídeo digital cheguem a US $ 22,18 bilhões, em 2021. Os gigantes da tecnologia e redes sociais brigam loucamente para abocanhar esta audiência e mercado.

Mas a discussão em torno do tema não é só mercadológica. Não podemos ignorar outros pontos fundamentais desta história: linguagem e percepção.

O filósofo tcheco-brasileiro, Vilém Flusser, afirmava que as imagens tradicionais (pinturas) teriam a função de traduzir o mundo, imaginado sob uma concepção cosmológica, período este que denomina de idolatria.

Na sequência, a escrita assumiria a função de explicar o mundo concreto. No entanto, para o autor, o texto seria incapaz de codificar conceitos mais abstratos, façanha possível somente por meio das imagens. Além disso, a escrita teria se perdido no que chama de textolatria, pois era hermética, de acesso restrito aos letrados e detentores de poder.

Segundo o filósofo, a evolução tecnológica, mais precisamente a câmera fotográfica, teria nos “libertado” da mortífera textolatria, pois inauguraria um “código geral para reunificar a cultura”:

(…) a invenção do aparelho fotográfico é o ponto a partir do qual a existência humana vai abandonando a estrutura do deslizamento linear, próprio dos textos, para assumir a estrutura de saltear quântico, próprio dos aparelhos. O aparelho fotográfico, enquanto protótipo, é o patriarca de todos os aparelhos. Portanto, o aparelho fotográfico é a fonte da robotização da vida em todos os seus pensamentos, desejos e sentimentos. (2002, p. 67)

Surgiriam, portanto, as tecnoimagens, imagens em movimento que, reproduzidas e distribuídas, compartilhariam conhecimento e cultura em uma sociedade não mais estritamente definida pelas instituições. Flusser previu que “as imagens técnicas concentrarão os interesses existenciais dos homens futuros” (2008, p.14).

Deste modo, teríamos diante de nós duas possibilidades: um rumo “programado” pela tecnologia ou construído de forma co-criativa entre usuários e seus programadores. Salientando que as imagens não representariam coisas, mas projetariam sentidos:

As imagens técnicas não são espelhos, mas projetores: projetam sentido sobre superfícies, e tais projeções devem constituir-se em projetos vitais para os seus espectadores. A gente deve seguir os projetos. Destarte surge estrutura social nova, a da “sociedade informática”, a qual ordena as pessoas em torno das imagens. Essa nova estrutura exige novo enfoque sociológico e novos critérios. A sociologia “clássica” enfoca o homem, com suas necessidades, desejos, sentimentos e conhecimentos, como o ponto de partida das análises da sociedade. A sociologia futura partirá da imagem técnica e do projeto dela imanente. (FLUSSER, 2008, p.55)

Todo engajamento político futuro deve necessariamente assumir tal tipo de visão, desviando o olhar do homem para o gadget. Todo engajamento futuro, se quiser ser “humano”, deve deixar de ser antropocêntrico e “humanista”, no significado antigo do termo. (FLUSSER, 2008, p.67, grifo do autor)

Flusser faleceu em 1991, no início da popularização da Internet. De lá para cá, muita coisa mudou.

  • Qualquer pessoa com um smartphone pode produzir e compartilhar imagens e vídeos.
  • Em 2015, cerca de 300 bilhões de fotos foram compartilhadas no Snap, 255 bilhões no WhatsApp, 128 bilhões postadas no Facebook, 31 bilhões no Instagram, 24 bilhões de selfies foram registradas no aplicativo de foto do Google.
  • As “instituições” midiáticas disputam narrativas, espaço e dinheiro com Influenciadores Digitais.
  • O tráfego da Internet beira 4 bilhões de gigabytes/dia.
  • 5,5 bilhões de vídeos são assistidos por dia no YouTube
  • Em 2019, 80% do consumo global da Internet será em vídeo.

O cara era filósofo, não a Melisandre, mas aparentemente sua obra é preditiva.

Nossa experiência perceptiva altera-se a cada novo movimento tecnológico e, evidentemente, não é orientada pelo texto, mas pelas imagens.

Podemos até discutir o conteúdo destas imagens, assim como discutimos o conteúdo de um telejornal, de uma novela, de um programa matinal etc., mas isso é outra história…

Se estamos dispostos e gostamos de assistir vídeos, definitivamente, não é porque somos “preguiçosos”, mas porque a linguagem e experiência imagética nos projetam no mundo.

 

Referências:

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

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SEO, embalagens, micro-moments e consumo

Ainda temos muito o que aprender sobre SEO

Na semana passada, vivi uma experiência que inspirou este post. A caminho de um compromisso, passei por uma farmácia e lembrei que precisava de um protetor solar facial. Entrei na loja e fui direto para o setor dermatológico. Bati o olho nas marcas e tive muitas dúvidas.

Como não havia feito uma pesquisa prévia, dediquei um tempo considerável lendo as embalagens. Não sou profunda conhecedora do design de embalagens, mas fato é que muitas não apresentavam, de forma direta e clara, o produto nem público ao qual ele se destinava.

Para a Associação Brasileira de Embalagens (ABRE), a função das embalagens não se restringe à venda dos produtos, mas serve também para informar, educar e deve fisgar o consumidor de forma criativa e inteligente. Segundo a entidade, uma embalagem tem apenas três segundos para atrair o consumidor e, se for bem-sucedida, tem 85% de chance de compra.

Pois bem, poucas marcas expostas naquela farmácia continham as informações específicas que eu procurava. Impaciente, passei a mão no smartphone e fui para o Google, achando que meu problema seria resolvido.

 

O que o SEO tem a ver com embalagens?

Ao pesquisar pelas palavras-chave necessárias, encontrei poucas referências interessantes na primeira página, o que me forçou a navegar pelo ranking.

 

[Pausa]

Nove em cada dez pessoas conectadas pesquisam sobre os produtos/serviços na Internet para tomar suas decisões. Veja aqui pesquisa do Boston Consulting Group sobre o tema. Outro estudo interessante, realizado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), revela que 49% das pessoas que usam apps fazem comparação de preços antes de comprar em uma loja online.

Desde 2015, o Google vem alertando os profissionais de conteúdo e os que lidam diretamente com os produtos (no design, marketing, trade etc.) sobre o fenômeno do Micro-moments, sua influência na vida do consumidor e como incorporá-los ao seu trabalho.

 

[Voltando ao SEO]

Diante da profusão de informação na rede, um dos mantras repetidos pelos especialistas em digital para alavancar as vendas é: incorpore as técnicas de SEO (Search Engine Optimization) nos conteúdos produzidos sobre os produtos/serviços nas plataformas de e-commerce e outros canais (sites, revistas e blogs especializados, além de portais de notícia). É meio caminho andado para se conseguir uma boa posição nos motores de busca.

Assim, é preciso taguear todo conteúdo (texto e imagens), criar bons títulos, subtítulos, descrições e outros macetes como pesquisar as palavras-chave e suas associações para que este conteúdo seja relevante e responda as perguntas das pessoas. Trabalho minucioso, disciplinar e estratégico que gera resultados em médio/longo prazo.

 

Mas você comprou?

Sim. No fim das contas, acabei comprando o único produto cuja embalagem continha a maioria das informações de que precisava: fator de proteção, indicação para tipo de pele e uso (corpo ou face). Os resultados iniciais no Google não me ajudaram naquele micro-moment.

Portanto, é preciso pensar em embalagens e conteúdos como produtos expostos numa gôndola, cujas informações e design determinam se serão ignorados, atraentes, lidos e/ou comprados. Tudo isso acontece em frações de segundos e cliques. E o trabalho de parte dos profissionais de comunicação é pensar em como expor eficientemente as coisas e facilitar a vida das pessoas, caso contrário, todo esforço pode ser em vão.

Em tempos de crise econômica, desperdiçar tempo e trabalho é muito ruim, né não?

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Snapcine: o Netflix brasileiro.

Neste mês, a Netflix anunciou a marca de 104 milhões de assinantes em 190 países. Em apenas 20 anos de história, a plataforma conseguiu superar o número de assinantes das operadoras de TV a cabo nos EUA.

O domínio da Netflix vem incomodando entidades do setor audiovisual que a acusam de concorrência desleal e de afastar as pessoas das salas de cinema que, tradicionalmente, lançam as produções. Uma briga que esquentou quando produções da Netflix foram indicadas para o Cannes deste ano. No Brasil, por exemplo, a Ancine quer regulamentar a distribuição de vídeos on demand (VoD).

Enquanto esta trama não se desenrola, a popularização do acesso à Internet e aos dispositivos (smart TVs, smartphones, tablets) aumenta o consumo de filmes e séries por streaming. De olho neste mercado, grandes empresas de mídia e entretenimento por aqui investem em plataformas VoD (Globo Play, Sky On Demand, Net Now, por exemplo).

Apesar das opções, há poucas iniciativas dedicadas exclusivamente às produções regionais, assim como àquelas de menores orçamentos. Mas há empreendimentos empenhados em transformar esta realidade.

Snapcine: filmes nacionais on demand

No dia 15 de julho, foi lançado no Brasil a Snapcine, iniciativa do diretor da produtora cearense Casa dos Bits, Philipe Ribeiro, cujo objetivo é ampliar a distribuição de conteúdo audiovisual para além do circuito de festivais e da rede de exibição em salas de cinema, dando visibilidade aos filmes, documentários e séries produzidas em todas as regiões do país, tornando-os acessíveis às pessoas conectadas à Internet.

Philipe Ribeiro conversou comigo e contou um pouco mais sobre o projeto pioneiro no Brasil. Confira a entrevista:

Rack: Como surgiu a ideia do projeto?

Philipe: O Snapcine surge da necessidade de alcançarmos um público maior de nossas produções e de parceiros. Nossa empresa trabalha com desenvolvimento de soluções para internet há vinte anos e com produção de conteúdo audiovisual há mais de dez anos e, por isso, foi possível juntar as duas expertises e entregar um serviço inovador no concorrido mercado audiovisual, não tivemos nenhum investimento externo nem investidor-anjo, muito comum em startups.

Rack: Qual é a importância da Snapcine para o cinema nacional?

Philipe: Nossa contribuição ao cinema brasileiro é trazer para o mercado um serviço inovador que tem como foco exibir filmes e séries brasileiras de todas as épocas (temos filmes de 1920!), de todas as durações (curtas, médias, longas-metragens e séries) e de todas as estéticas e temas em um amplo acervo gratuito e lançamentos a preços populares.

 

“Um sonho é tornar possível que todo brasileiro(a), independente da origem e da condição social, tenha acesso a um conteúdo audiovisual nacional de qualidade e que esse acervo contribua para a formação crítica de cada um pois acreditamos que grandes filmes e pessoas motivadas podem mudar o mundo”. Philipe Ribeiro, idealizador do Snapcine.

 

Rack: A iniciativa pode diminuir a concentração das produções no sul e sudeste?

Philipe: A plataforma está fornecendo as condições técnicas necessárias para qualquer cineasta, de norte a sul do país, do interior e das capitais, enviar seus filmes e séries para análise e publicação. Tivemos, desde o lançamento, o cuidado de catalogar todo o acervo por estado, ou seja, estamos fortalecendo as cenas locais e propiciando aos usuários filmes que foram produzidos por seus conterrâneos – se identificando com as histórias – e, ainda, conhecer lugares dos quatro cantos do país por meio da fotografia das obras catalogadas.

Rack: Como a iniciativa pode contribuir com a formação dos estudantes e profissionais na área?

Philipe: Nosso acervo é composto por filmes e séries brasileiras de todas as durações, portanto, é um excelente lugar para experimentar estéticas e temas e fortalecer o network com profissionais da área, pois cada diretor(a) tem uma página dentro da plataforma com todos os filmes que dirigiu. Isso já é um excelente portfólio para futuros projetos.

Rack: O Netflix tem gerado incômodo entre entidades preocupadas com a lotação nas salas de cinema? Você concorda com este pensamento sobre este tipo de negócio? Sim ou não? Por que?

Philipe: A história recente nos prova que a abertura de uma janela não fecha outra. Esse incômodo foi anunciado com a entrada do VHS das locadoras de filmes, depois voltou com a chegada do DVD, retornando agora com o vídeo sob demanda. O mercado passa a incorporar uma nova tecnologia a partir do momento que ele vê o “incômodo” se transformar em oportunidade de negócio e, de preferência, com a manutenção das margens de lucro do mercado já consolidado. Assim foi com os blogs e e-books no mercado editorial, com os podcasts na radiodifusão e agora com o VOD no mercado audiovisual.

Rack: É possível que este tipo de iniciativa/negócio seja sustentável para toda cadeia de produção?

Philipe: Nosso acervo é majoritariamente composto por conteúdo gratuito monetizado por meio de publicidade com a metade do valor retornando ao realizador ou produtor. Já os lançamentos têm preços acessíveis: para séries inéditas, cada temporada custa R$ 3,99; já os filmes inéditos têm o valor de R$ 1,99. O valor de retorno ao realizador ou produtor é a metade do valor da locação. A partir do momento em que os produtores tem retorno financeiro em suas obras, mais filmes e séries podem ser produzidas e toda a cadeia produtiva é beneficiada com novas produções.

Gostou do projeto? Acesse: http://www.snapcine.com/

Até! 😉

Comunicação Digital para ONGs: como fazer?

Entre 2011 e 2015, trabalhei como coordenadora de comunicação de duas importantes organizações não governamentais. Ambas influentes em suas áreas de atuação: o Instituto Sou Paz, reconhecido pelos projetos inovadores na segurança pública e prevenção da violência; e Católicas pelo Direito de Decidir, empenhada em transformar os padrões culturais e religiosos por meio do feminismo.

Quando fui convidada para assumir o trabalho nas duas entidades, meu principal desafio era: dar visibilidade para as ONGs no mundo digital, especialmente em suas redes sociais. Além de divulgar missões, valores e projetos de ambas, deveria contribuir com a captação de recursos, logo, com a sustentabilidade institucional.

O trabalho exigiu múltiplas ações coordenadas:

☑ Planejamento estratégico;

☑ Delineamento e relacionamento com diferentes públicos, incluindo atualização permanente do mailing institucional;

☑ Criação, curadoria e gestão de conteúdos (texto, infográficos, fotos, vídeos) e campanhas coerentes e de qualidade para todos os canais digitais (site, newsletter, Facebook, Twitter, You Tube);

☑ Boas práticas de SEO;

☑ Monitoramento, métricas e análise regular de todos os canais;

☑ Relações Públicas e produção de pautas para jornalistas;

☑ Busca e bom relacionamento com diferentes parceiros e prestadores de serviço;

☑ Estabelecimento de Cultura Comunicacional: media training e compartilhamento de boas práticas de comunicação com toda a equipe;

☑ Feedback permanente para supervisão direta, com relatórios, métricas e apontamentos sobre os pontos positivos e negativos das ações;

☑ Acompanhamento das notícias sobre temas – direta ou indiretamente – relacionados ao trabalho das instituições.

Sabe-se que as ONGs, diferentemente das empresas, não têm finalidade lucrativa, fato que impacta diretamente seus recursos financeiros e humanos. As equipes de comunicação, geralmente, são pequenas e, cotidianamente, precisam rever suas decisões, ações, cronogramas etc.

No entanto, com um trabalho bem coordenado e alinhado às inovações tecnológicas, é possível garantir excelentes resultados: milhares de acesso aos sites, aumento de seguidores com alto engajamento nas redes sociais, centenas de entrevistas na imprensa, conquistas de novos parceiros etc. Entrem nos canais dessas instituições e vejam com os próprios olhos.

Esta tarefa não foi fácil, afinal, temas tão caros à sociedade como segurança pública e direitos das mulheres e LGBTs, infelizmente, ainda são deturpados por vozes reacionárias, machistas e homofóbicas. Foi preciso desmitifica-los e traduzi-los para o grande público, atraindo, assim, potenciais adeptos e lovers que não conheciam os trabalhos das instituições.

Obviamente, este sucesso foi possível graças a todas as pessoas das equipes, especialmente dos excelentes jornalistas, designers, ilustradoras, fotógrafos e videomakers. No Sou da Paz, pude aprender e contar com o talento de Fernanda Ozilak, Fernando Freitas, Janaína Siqueira, Ligia RechenbergLuana Viegas e Rafael Telles Machado. Em Católicas, tive as parceiras Elisa Gargiulo e Luiza Kame.

A comunicação é essencial para a vida das ONGs, dos projetos e coletivos autônomos e ativistas de diversas frentes. Ela contribui para as mudanças de paradigmas sociais e transformação dos modos de ver o mundo.

Dá trabalho, é desafiador, mas vale muito, muito a pena. 😉

Aniversário do iPhone: um marco da comunicação digital

A Apple comemorou nesta quinta-feira, 29 de junho, o aniversário de 10 anos do iPhone. Neste período, o desenvolvimento da tecnologia digital foi tamanho que fica difícil mensurar seu impacto.

No entanto, pode-se afirmar que a evolução dos smartphones inspirou-se no projeto disruptivo da Apple, que ainda dita as inovações no mundo digital, basta olharmos para os produtos e serviços que temos hoje e que foram espelhados no iOS, na App Store, na Siri.

Após o histórico anúncio de seu lançamento, feito por Steve Jobs, nasceu um desejo em escala mundial: todos queriam aquele pequeno dispositivo que se conectava à Internet, permitia a interação pelo touchscreen e ainda produzia imagens excepcionais.

Resultado? Desde 2007, cerca de 1,2 bilhão de iPhones foram vendidos no mundo, segundo o CEO da Apple, Tim Cook.

Desde então, a ubiquidade gerou a hiperconectividade que vem revolucionando a interação social, o acesso e produção de informação, dados e imagens, o consumo, os negócios.

Hoje metade da população mundial tem acesso à Internet (em 2007, eram apenas 20%), 66% possuem um smartphone (o desktop ficou para trás…), no Brasil há mais celulares do que gente, e 37% das pessoas são ativas nas redes sociais (esta era a população mundial em 1955… 😲).

Tudo em apenas 10 anos! O que são 3.650 dias na história da comunicação?

Juntas, estas e outras transformações alteraram completamente todo o mercado da comunicação, forçando a permanente atualização da formação e das práticas cotidianas dos profissionais do Marketing, Jornalismo, Relações Públicas, Design etc.

Por isso, colegas, para nos mantermos vivos… you better work!

As inovações do mundo digital devem orientar cada passo que todos nós damos na profissão, pois ninguém quer ouvir um “sashay away”. Não acompanhar as novidades e implicações do digital pode ser um erro fatal.

 

Assistentes virtuais: uma realidade incontornável

“A ficção científica vem a ser apenas (…) a extrapolação da própria cotidianidade”. Jean Baudrillard1

Relevantes autores garantem que, historicamente, as artes profetizam os rumos da hibridação entre seres humanos e tecnologia.

Salvo certos exageros, alguns roteiros cinematográficos recentes têm sacramentado o que parecia só “ficção”. Gosto particularmente de um deles: o premiado Her de Spike Jonze que, em 2013, abalou o mundo acadêmico e imaginário social ao dar “vida” à assistente virtual Samantha.

Quatro anos se passaram após Her e cá estamos às voltas com dispositivos/softwares falantes inteligentes: os próprios smartphones, Waze, Siri, Cortana, Echo etc. Mesmo quando não queremos. Outro dia, conversando com meu amor em casa, disse a palavra “Então”. Eis que o Google Now fala roboticamente: “Então. É. Natal.” Sim, é vero. Só faltou a Simone se materializar na minha frente. Esta realidade tem sido bastante criticada por quem entende que a tecnologia está “invadindo” demais nossas vidas.

Mas, por que os comandos de voz estão em alta?

Obviamente, este questionamento é complexo e exigiria reflexões proporcionais que não caberiam em nesta nota. Mas… penso em algumas pistas.

Nossos corpos e sentidos são em si pura tecnologia. Operam a partir da combinação de uma infinidade de acontecimentos mecânicos e sinais elétricos, adaptáveis e estimulados constantemente pelo meio em que vivemos.

A fala, por exemplo.

Lucia Santaella afirma que somos “fruto de um longo e gradativo processo que já teve início quando a espécie humana ascendeu à sua posição bípede, de um ser que gesticula e fala. As primeiras tecnologias sígnicas, da comunicação e da cultura, já foram a fala e o gesto. Não obstante sua pretensa naturalidade, a fala já é um tipo de sistema técnico, quase tão artificial quanto um computador”.2

E o som que vem da fala não seria uma mera onda mecânica, mas algo capaz de carregar consigo e propagar toda nossa carga emocional e cultural coletiva3. Por isso, a conjunção entre fala e audição teria um potencial perceptivo tão grande.

Igualmente em relação à intersecção entre visão e fala. No início do século passado, Walter Benjamin já anunciava que a profusão das imagens incrementada com a fotografia e o cinema alteraram nossos sentidos, pois “o olho (…) pode manter o passo com a fala”.4 Agora pense sobre o sentido desta afirmação no contexto contemporâneo das imagens e assistentes virtuais…

Ao questionarmos/criticarmos a tecnologia, precisamos lembrar de que as coisas não brotam do nada. Elas têm uma história sinérgica, pois gente e tecnologia se implicam mutuamente, trocam conhecimento e se aprimoram desde que o mundo é mundo.

Não é à toa que os gigantes da tecnologia têm investido pilhas de dólares em seus projetos de I.A., IoT e comando de voz. O Google, por exemplo, aposta que “a próxima revolução da indústria vai ser impulsionada pela combinação de marketing e machine learning e que os comandos de voz serão uma das principais formas de interação entre gente e coisas. Seu Assistente já “enxerga” e “compreender” o mundo ao seu/nosso redor.

Esta e outras empresas – compostas por batalhões de cientistas, analistas, profissionais de comunicação e marketing etc. – conhecem e exploram bem os pontos de contato entre nós e os dispositivos e é assim que empreendem e constroem seu império comercial.

Ainda que este processo seja assustador, e sim mereça críticas, reflexões e melhorias, ao observar as revoluções tecnológicas em curso, sempre penso na afirmação certeira de Donna Haraway: “a fronteira entre a ficção científica e a realidade social é uma ilusão de ótica”.5

Dicas de leitura:

  1. BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. – São Paulo: Perspectiva, 2015.
  2. SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. – São Paulo: Paulus, 2003.
  3. PERNIOLA, Mario. Do sentir. – Lisboa: Editora Presença, 1993.
  4. BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. – Porto Alegre: Zouk, 2014.
  5. HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: TADEU, Tomaz (Org. e Trad.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. 2.ed. – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

Fiquei desconectada e foi revelador

Fiquei desconectada do mundo por 72 horas. Quando uma mestranda está terminando sua dissertação, este movimento pode ser necessário. Precisava me concentrar na leitura e escrever a versão final para a revisão do orientador. Não tive dúvida: desliguei o smartphone.

Ao religar o tamagotchi, me deparei com centenas de mensagens diretas ou em grupos de amigos e familiares. Quem me escreveu, enviou foto, vídeo e áudio, pressupôs que eu estivesse “ali”, online. Além de conteúdos triviais (sim, amenidades também são conteúdo), me pediram favores, indicações, convidaram para atividades culturais e perguntaram: “Você está aí? Não responde, estou preocupada”. Entendo. Afinal, sou daquelas que está 24 horas conectada, não é à toa que estudo tecnologia…

Coincidentemente, logo após minha experiência, no dia 3 de maio, o Whatsapp saiu do ar por algumas horas no Brasil e outros países. Imediatamente, posts e memes nas redes sociais sugeriam às pessoas que aproveitassem a situação e voltassem a ter uma “vida social”.

Acho curiosas tais reações. Ao fazerem alusão à suposta alienação provocada pelo digital, afirmando que ele nos aparta, tais comentários simplesmente ignoram o fato de que não existe separação mais entre a “vida online” e off-line.

O digital entranhou-se de tal modo no social que ele nos expõe duas questões centrais: a) nossa disposição histórica e permanente à conexão interpessoal; b) que a tecnologia nos conforma tanto quanto qualquer rito social praticado/alterado até aqui.

É inegável que a profusão de informação na atualidade gera problemas como, por exemplo, transtorno de ansiedade. Há inúmeros estudos sobre tal impacto, especialmente nas ciências da saúde física e mental. Pudera, afinal, sem recalque pfvr, precisamos reconhecer que uma criatura que ainda usa somente 10% da sua capacidade mental, em alguma hora, vai dar pane com tanta informação. O filme Lucy, de Luc Besson, dá uma inspiração ficcional para o que poderia acontecer conosco se (quando?) pudéssemos alcançar este nível de processamento e conexão. Apesar dos problemas evidentes, acredito, no entanto, que informação gera conhecimento e é o conhecimento que nos move, nos faz crescer, inovar, superar dificuldades, solucionar problemas.

Quem me contatou pelo Whatsapp naquele feriadão de 1º de maio, partiu do pressuposto de que eu estava ali, pronta em carne e osso para interagir e estabelecer uma relação “virtual” na qual pudéssemos trocar informações, ideias e bobagens. Portanto, ainda que alguns não admitam, todos já internalizamos que “estar ali” online é sinônimo de existir em diferentes lugares e tempos. Portanto, ainda que estivesse trancada em casa, mergulhada em pilhas de livros e no Word, se estivesse conectada, não estaria “sozinha”.

Obviamente, esta condição é excludente, pois somente metade do mundo tem acesso a dispositivos e Internet. Assim, como ficaria esta equação conexão = existência? Certamente precisamos debater isto, mas em outro momento.