Dona Ivone Lara: voz negra que nos deu felicidade

Acordei com a notícia que Dona Ivone se foi.

Esta mulher incrível não é considerada a Dama do Samba à toa, pois nasceu embalada nele pelos seus pais que, já na década de 1920, tinham uma intensa vida musical e carnavalesca.

Em quase cem anos de história, este ser de luz fez muito pela nossa cultura, pela cultura negra, mas também pelas mulheres e mais necessitados porque, além de compositora e cantora, era enfermeira e assistente social.

Em 12 de agosto de 2004, tive o prazer de entrevista-la para o programa Fala Mulher. Numa conversa de dez minutos, Dona Ivone falou sobre seu novo disco na época “Sempre a Cantar” e contou um pouco da sua história, sua relação com a família Villa Lobos, o trabalho com Nise da Silveira, além de suas parcerias no samba.

Aqui você pode ouvir a entrevista.

Reparem que eu, bobinha do alto da minha juventude inexperiente, chamava Dona Ivone de “você” e às vezes à interrompia 🤭, mas acho que ela não ligou muito… 😁

Dá o play aí! Vale a pena ouvir a voz e o jeito amável desta pessoa que respeito muito.

Aqui o disco completo Sempre a Cantar. 👇

Fala Mulher: uma história de luta pelos direitos das mulheres

Fala Mulher foi o nome do programa e da pioneira rádio online criados pela ONG carioca Comunicação, Educação e Informação em Gênero (CEMINA), na qual tive o prazer de trabalhar como repórter e produtora.

O Fala Mulher tinha o propósito de debater os direitos das mulheres e fortalecer ações para o empoderamento feminino por meio da informação.

Já o CEMINA construiu uma linda história por meio de projetos sociais focados na igualdade de gênero, entre eles: a capacitação de mulheres pelo Brasil afora em diversos temas, inclusive Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC); a criação de redes de comunicadoras e líderes comunitárias etc.

Infelizmente, a ONG não existe mais, no entanto, seu legado é ímpar e faz parte da importantíssima história do movimento de mulheres e feministas brasileiras.

 

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8 de Março e suas “homenagens”

O 8 de Março é um dia especial. Dia em que milhares de mulheres no mundo vão às ruas para reivindicar nossos direitos e promover atividades para ratificar nossa sororidade e comemorar nossas conquistas.

Estas conquistas são fruto da luta histórica e do engajamento político das trabalhadoras, urbanas e rurais, das acadêmicas e cientistas, das feministas, das donas de casa. Todas!

São fruto da resistência combativa das mulheres negras, indígenas, lésbicas, bissexuais, transexuais que, apesar do machismo, racismo e homofobia estrutural, não se calam, enfrentam e seguem abrindo portas para si e para as outras.

Mas 8 de Março também é dia de aturarmos as acintosas e patéticas “homenagens” de algumas empresas e instituições públicas que até agora – no caso 2018 – não entenderam nada.

Chovem memes, cartazes e vídeos institucionais enaltecendo nossas “qualidades”, “beleza”, “brilho”, “resiliência nata”, “intuição”, “sensibilidade”, “alegria”, nossa capacidade de girar 500 pratos ao mesmo tempo com “sorriso no rosto”. 🙄

Recebi algumas dessas “deferências” no meu WhatsApp, mas duas em particular me chamaram a atenção: a da Secretaria da Família e Desenvolvimento Social/ Coordenação da Política da Mulher de Curitiba e o “singelo” aviso na entrada do Pão de Açúcar da Vila Suzana, em São Paulo. Ei-las abaixo:

Cílios no semáforo, senhores?
Deus nos criou meladas com mel e pitadinha de sal?

Gente… não temos mais paciência para este tipo de coisa, sabe?

Por que não se contentam em fazer o básico? Leia-se: pagar um salário decente; promover equidade salarial; respeitar a carga horária acordada e os direitos trabalhistas; garantir licença maternidade e creche; coibir e penalizar qualquer tipo de assédio e outras formas de violência; dar voz de decisão; reconhecer e valorizar nossa opinião; respeitar nosso modo de ser e de vestir; nossa tanta coisa para fazer…

Para além disso ☝, se a instituição entende ser importante fazer uma homenagem (de verdade) no dia 8 de março, dialogue com as mulheres e certifique-se de que sua “ideia brilhante” valoriza nossa luta histórica por direitos e não reforça estereótipos.

👉 A foto maravilhosa da capa deste post é da amiga fotógrafa Claudia Ferreira que há décadas registra os movimentos das mulheres no Brasil. Claudia e a jornalista Claudia Bonan são autoras do banco de imagens Mulheres e Movimentos.

 

Net-ativismo: redes digitais e participação

As ruas estão silenciosas. Por mais atenta que esteja, confesso que não consigo decifrar os porquês. Ainda que tudo ao redor seja revoltante, indigno e assombrosamente criminoso no âmbito político. Nas redes até pipocam campanhas ali e aqui, mas nas ruas nos calamos. Hoje, somente movimentos organizados em torno dos direitos à moradia, às terras e dos direitos indígenas tentam, sem visibilidade midiática, lutar contra o que aí está.

Observação:

As gritas e censuras contra exposições e atividades artísticas e culturais não são movimento social nem “liberdade de expressão”…, mas excreção daquilo que pior existe nas sociedades.

Portanto:

O cenário atual é bastante distinto daqueles que vivemos em 2013, 2014, 2015 e 2016. Nada das “massas” com propósitos sociais.

Desde a Primavera Árabe (2010, sim já faz tudo isso), pesquisadores de todo mundo empenham-se em entender o impacto da tecnologia digital e das redes sociais na conformação sociocultural e nas estruturas político-econômicas de diversos países.

A primavera brasileira arrefeceu, esquentou de novo, se polarizou, e, neste momento, inexiste. Estou curiosa para saber o que acontecerá até outubro de 2018…

Para entender o presente e o futuro, é necessário recuperar o passado, esmiúça-lo, observar suas controvérsias, atores e atrizes, propósitos, conexões e práticas.

Em 2013, tive o prazer de participar do I Congresso Internacional de Netativismo, organizado pelo Centro Internacional de Pesquisa Atopos, cujas principais reflexões acabam de ser publicadas no livro Net-ativismo: redes digitais e novas práticas de participação, organizado por Massimo Di Felice, Eliete Pereira e Erick Roza, e distribuído pela Papirus Editora.

netativismo-redes digitais-participação-rackeando

A obra conta com artigos de pesquisadores da Argélia, Brasil, Colômbia, Egito, França, Itália, Líbia, México, Portugal e Tunísia, entre eles Lucia Santaella, Michel Maffesoli, Pierre Lévy e Stéphane Hugon. Cada qual à sua maneira faz amarrações teóricas e empíricas sobre como as redes sociais impactam a participação social e a política, em seus respectivos países.

Meu artigo, escrito em parceria com o amigo Erick Roza, recupera o emblemático movimento das Marchas das Vadias no Brasil, que luta pelos direitos das mulheres e pelo fim da cultura do estupro. Uma coletiva, nascida no Canadá, nas redes, espraiada pelas ruas do mundo, e caracterizada pela descentralização e apartidarismo.

Para aquelxs que se interessam pelo tema, boa leitura!

O machismo estupra todo dia

Ilustração do artista Matheus Ribs.
Ilustração do artista Matheus Ribs.

Infelizmente, ser mulher é saber, desde muito cedo, que você será assediada e violentada de alguma forma, em algum momento da vida. Todas nós temos uma história para contar. Sem distinção. Algumas temos força para reagir e gritar, outras não… porque o assédio e a violência machista e misógina são tão asquerosos que, por vezes, chegam a nos paralisar.

Neste feriado, fiz um passeio com minha irmã e pegamos o metrô para voltar para casa. Ao entrar no vagão nos deparamos com dois grupos de homens, com uniformes de trabalho e um time de futebol, que se juntaram e começaram a assediar as meninas que lá estavam: um casal de lésbicas, nós e, especialmente, uma moça que estava de saia. Eles cantavam para o casal um funk cujo conteúdo era algo do tipo: “senta aqui na minha piroca pra você ver”. Em um dado momento, eles cercaram a moça de saia que se incomodou e foi para outra porta do trem. Foi quando um deles foi na direção da moça, tentando encostar nela, naquele tipo de movimento corporal nojento que o homem faz quando quer encontrar o pau na gente. Minha irmã e eu intervirmos. Deu-se início a uma briga. Gritávamos que eles deviam respeitar as mulheres, que eles eram agressores e covardes. A briga esquentou e eles tentaram vir para cima de nós. Foi quando as outras meninas, também assediadas, fizeram uma roda para nos proteger. Os homens do vagão? Ficaram quietos, só olhando. O trem parou, fizemos um escândalo, e rapidamente cinco seguranças apareceram, inclusive uma mulher. A briga continuou, eles nos separaram, mas os machos agressores ficaram bem quietinhos num canto, com a cabeça baixa, falando fino. Toda aquela virilidade se transformou rapidamente em vitimização, disseram que éramos loucas. O metrô registrou o ocorrido, fichou os canalhas para uma sindicância interna que agora têm seus nomes, RGs e fotos.

Não há qualquer diferença entre aqueles homens do metrô e os 33 seres abjetos que estupraram a moça no Rio. Todos os agressores agem movidos pelo machismo, pela ideia de que nós mulheres devemos servi-los e somos culpadas por existirmos. Trata-se sim de uma cultura do estupro para a qual parte da sociedade fecha os olhos.

É importante que a sociedade entenda que não são só os homens da rua e de casa – aliás, os maiores autores da violência física e sexual no mundo – que nos violentam.

Quando lideranças políticas fundamentalistas impedem o debate sobre gênero nas escolas e espaços públicos, eles nos violentam.

Quando criam projetos que impedem o acesso ao aborto, mesmo em caso de estupro, e à pílula do dia seguinte, eles nos violentam.

Quando um deputado diz publicamente que não estupraria uma deputada porque ela não merece, e sai impune, ele nos violenta.

Quando um ministro recebe em seu gabinete um estuprador confesso para dele ter ideias para a educação no Brasil, ele nos violenta.

Quando a mídia vende que o modelo ideal de mulher é aquela “bela, recatada e lar”, ela nos violenta.

Quando a sociedade estigmatiza as putas, ela nos violenta.

Quando negam os direitos das lésbicas, trans e travestis, nos violentam.

Quando os religiosos querem controlar nosso corpo e sexualidade, eles nos violentam.

Nos violentam a todas!

No Brasil, uma mulher é estuprada a cada TRÊS horas! Este dado é somente dos casos registrados no 180.

Enquanto este crime hediondo ocorrer, não teremos paz.

Enquanto não tivermos paz, vamos lutar, com as armas que forem necessárias.

#EstuproNUNCAMais

#EstuproNaoÉCulpaDaVitima

#PeloFimdoMachismo