Vídeo: o futuro do mundo digital?

O vídeo é o futuro do digital. A sentença tem sido polinizada pelos especialistas e profissionais deste “novo” mundo. Outro dia, participava de um curso sobre redes quando o assunto surgiu.

Os companheiros da sala ensaiaram muitas respostas para o fenômeno: “nosso tempo está curto demais e as pessoas preferem os vídeos”; “queremos o vídeo por praticidade”; “isso só acontece porque somos impacientes”; “ninguém lê mais nada, querem [os outros] vídeo porque são preguiçosos”; “as pessoas não sabem mais escrever, escrevem garranchos por causa disso” etc. Compreendo o burburinho em torno do tema, mas peço licença para ponderar algumas controvérsias sobre ele.

Na virada do século, a conexão à Internet era restritiva em termos de banda e acesso aos dispositivos. Éramos apenas 414 milhões de conectados. Nestas quase duas décadas, o exponencial desenvolvimento tecnológico permitiu que meio mundo se conectasse. Com as mudanças nas formas e velocidade de transmissão de dados, hoje podemos acessar conteúdo em diferentes formatos.

(Parênteses)

Particularmente, acho ótimo que não tenhamos parado no tempo do teclado e do “jogo da cobrinha” no Nokia 3310.

(Fecha Parênteses)

Portanto, não é à toa que os vídeos se tornaram a mina de ouro dos produtores de conteúdo, sejam empresas, coletivos ou indivíduos. Vivemos um processo até que os vídeos fossem produzidos e consumidos por milhares de pessoas. Esta experiência tem gerando uma receita até pouco inexplorada.

O e-Marketer prevê que, nos EUA, os investimentos em produção de vídeo digital cheguem a US $ 22,18 bilhões, em 2021. Os gigantes da tecnologia e redes sociais brigam loucamente para abocanhar esta audiência e mercado.

Mas a discussão em torno do tema não é só mercadológica. Não podemos ignorar outros pontos fundamentais desta história: linguagem e percepção.

O filósofo tcheco-brasileiro, Vilém Flusser, afirmava que as imagens tradicionais (pinturas) teriam a função de traduzir o mundo, imaginado sob uma concepção cosmológica, período este que denomina de idolatria.

Na sequência, a escrita assumiria a função de explicar o mundo concreto. No entanto, para o autor, o texto seria incapaz de codificar conceitos mais abstratos, façanha possível somente por meio das imagens. Além disso, a escrita teria se perdido no que chama de textolatria, pois era hermética, de acesso restrito aos letrados e detentores de poder.

Segundo o filósofo, a evolução tecnológica, mais precisamente a câmera fotográfica, teria nos “libertado” da mortífera textolatria, pois inauguraria um “código geral para reunificar a cultura”:

(…) a invenção do aparelho fotográfico é o ponto a partir do qual a existência humana vai abandonando a estrutura do deslizamento linear, próprio dos textos, para assumir a estrutura de saltear quântico, próprio dos aparelhos. O aparelho fotográfico, enquanto protótipo, é o patriarca de todos os aparelhos. Portanto, o aparelho fotográfico é a fonte da robotização da vida em todos os seus pensamentos, desejos e sentimentos. (2002, p. 67)

Surgiriam, portanto, as tecnoimagens, imagens em movimento que, reproduzidas e distribuídas, compartilhariam conhecimento e cultura em uma sociedade não mais estritamente definida pelas instituições. Flusser previu que “as imagens técnicas concentrarão os interesses existenciais dos homens futuros” (2008, p.14).

Deste modo, teríamos diante de nós duas possibilidades: um rumo “programado” pela tecnologia ou construído de forma co-criativa entre usuários e seus programadores. Salientando que as imagens não representariam coisas, mas projetariam sentidos:

As imagens técnicas não são espelhos, mas projetores: projetam sentido sobre superfícies, e tais projeções devem constituir-se em projetos vitais para os seus espectadores. A gente deve seguir os projetos. Destarte surge estrutura social nova, a da “sociedade informática”, a qual ordena as pessoas em torno das imagens. Essa nova estrutura exige novo enfoque sociológico e novos critérios. A sociologia “clássica” enfoca o homem, com suas necessidades, desejos, sentimentos e conhecimentos, como o ponto de partida das análises da sociedade. A sociologia futura partirá da imagem técnica e do projeto dela imanente. (FLUSSER, 2008, p.55)

Todo engajamento político futuro deve necessariamente assumir tal tipo de visão, desviando o olhar do homem para o gadget. Todo engajamento futuro, se quiser ser “humano”, deve deixar de ser antropocêntrico e “humanista”, no significado antigo do termo. (FLUSSER, 2008, p.67, grifo do autor)

Flusser faleceu em 1991, no início da popularização da Internet. De lá para cá, muita coisa mudou.

  • Qualquer pessoa com um smartphone pode produzir e compartilhar imagens e vídeos.
  • Em 2015, cerca de 300 bilhões de fotos foram compartilhadas no Snap, 255 bilhões no WhatsApp, 128 bilhões postadas no Facebook, 31 bilhões no Instagram, 24 bilhões de selfies foram registradas no aplicativo de foto do Google.
  • As “instituições” midiáticas disputam narrativas, espaço e dinheiro com Influenciadores Digitais.
  • O tráfego da Internet beira 4 bilhões de gigabytes/dia.
  • 5,5 bilhões de vídeos são assistidos por dia no YouTube
  • Em 2019, 80% do consumo global da Internet será em vídeo.

O cara era filósofo, não a Melisandre, mas aparentemente sua obra é preditiva.

Nossa experiência perceptiva altera-se a cada novo movimento tecnológico e, evidentemente, não é orientada pelo texto, mas pelas imagens.

Podemos até discutir o conteúdo destas imagens, assim como discutimos o conteúdo de um telejornal, de uma novela, de um programa matinal etc., mas isso é outra história…

Se estamos dispostos e gostamos de assistir vídeos, definitivamente, não é porque somos “preguiçosos”, mas porque a linguagem e experiência imagética nos projetam no mundo.

 

Referências:

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

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Comunicação Digital para ONGs: como fazer?

Entre 2011 e 2015, trabalhei como coordenadora de comunicação de duas importantes organizações não governamentais. Ambas influentes em suas áreas de atuação: o Instituto Sou Paz, reconhecido pelos projetos inovadores na segurança pública e prevenção da violência; e Católicas pelo Direito de Decidir, empenhada em transformar os padrões culturais e religiosos por meio do feminismo.

Quando fui convidada para assumir o trabalho nas duas entidades, meu principal desafio era: dar visibilidade para as ONGs no mundo digital, especialmente em suas redes sociais. Além de divulgar missões, valores e projetos de ambas, deveria contribuir com a captação de recursos, logo, com a sustentabilidade institucional.

O trabalho exigiu múltiplas ações coordenadas:

☑ Planejamento estratégico;

☑ Delineamento e relacionamento com diferentes públicos, incluindo atualização permanente do mailing institucional;

☑ Criação, curadoria e gestão de conteúdos (texto, infográficos, fotos, vídeos) e campanhas coerentes e de qualidade para todos os canais digitais (site, newsletter, Facebook, Twitter, You Tube);

☑ Boas práticas de SEO;

☑ Monitoramento, métricas e análise regular de todos os canais;

☑ Relações Públicas e produção de pautas para jornalistas;

☑ Busca e bom relacionamento com diferentes parceiros e prestadores de serviço;

☑ Estabelecimento de Cultura Comunicacional: media training e compartilhamento de boas práticas de comunicação com toda a equipe;

☑ Feedback permanente para supervisão direta, com relatórios, métricas e apontamentos sobre os pontos positivos e negativos das ações;

☑ Acompanhamento das notícias sobre temas – direta ou indiretamente – relacionados ao trabalho das instituições.

Sabe-se que as ONGs, diferentemente das empresas, não têm finalidade lucrativa, fato que impacta diretamente seus recursos financeiros e humanos. As equipes de comunicação, geralmente, são pequenas e, cotidianamente, precisam rever suas decisões, ações, cronogramas etc.

No entanto, com um trabalho bem coordenado e alinhado às inovações tecnológicas, é possível garantir excelentes resultados: milhares de acesso aos sites, aumento de seguidores com alto engajamento nas redes sociais, centenas de entrevistas na imprensa, conquistas de novos parceiros etc. Entrem nos canais dessas instituições e vejam com os próprios olhos.

Esta tarefa não foi fácil, afinal, temas tão caros à sociedade como segurança pública e direitos das mulheres e LGBTs, infelizmente, ainda são deturpados por vozes reacionárias, machistas e homofóbicas. Foi preciso desmitifica-los e traduzi-los para o grande público, atraindo, assim, potenciais adeptos e lovers que não conheciam os trabalhos das instituições.

Obviamente, este sucesso foi possível graças a todas as pessoas das equipes, especialmente dos excelentes jornalistas, designers, ilustradoras, fotógrafos e videomakers. No Sou da Paz, pude aprender e contar com o talento de Fernanda Ozilak, Fernando Freitas, Janaína Siqueira, Ligia RechenbergLuana Viegas e Rafael Telles Machado. Em Católicas, tive as parceiras Elisa Gargiulo e Luiza Kame.

A comunicação é essencial para a vida das ONGs, dos projetos e coletivos autônomos e ativistas de diversas frentes. Ela contribui para as mudanças de paradigmas sociais e transformação dos modos de ver o mundo.

Dá trabalho, é desafiador, mas vale muito, muito a pena. 😉

Fiquei desconectada e foi revelador

Fiquei desconectada do mundo por 72 horas. Quando uma mestranda está terminando sua dissertação, este movimento pode ser necessário. Precisava me concentrar na leitura e escrever a versão final para a revisão do orientador. Não tive dúvida: desliguei o smartphone.

Ao religar o tamagotchi, me deparei com centenas de mensagens diretas ou em grupos de amigos e familiares. Quem me escreveu, enviou foto, vídeo e áudio, pressupôs que eu estivesse “ali”, online. Além de conteúdos triviais (sim, amenidades também são conteúdo), me pediram favores, indicações, convidaram para atividades culturais e perguntaram: “Você está aí? Não responde, estou preocupada”. Entendo. Afinal, sou daquelas que está 24 horas conectada, não é à toa que estudo tecnologia…

Coincidentemente, logo após minha experiência, no dia 3 de maio, o Whatsapp saiu do ar por algumas horas no Brasil e outros países. Imediatamente, posts e memes nas redes sociais sugeriam às pessoas que aproveitassem a situação e voltassem a ter uma “vida social”.

Acho curiosas tais reações. Ao fazerem alusão à suposta alienação provocada pelo digital, afirmando que ele nos aparta, tais comentários simplesmente ignoram o fato de que não existe separação mais entre a “vida online” e off-line.

O digital entranhou-se de tal modo no social que ele nos expõe duas questões centrais: a) nossa disposição histórica e permanente à conexão interpessoal; b) que a tecnologia nos conforma tanto quanto qualquer rito social praticado/alterado até aqui.

É inegável que a profusão de informação na atualidade gera problemas como, por exemplo, transtorno de ansiedade. Há inúmeros estudos sobre tal impacto, especialmente nas ciências da saúde física e mental. Pudera, afinal, sem recalque pfvr, precisamos reconhecer que uma criatura que ainda usa somente 10% da sua capacidade mental, em alguma hora, vai dar pane com tanta informação. O filme Lucy, de Luc Besson, dá uma inspiração ficcional para o que poderia acontecer conosco se (quando?) pudéssemos alcançar este nível de processamento e conexão. Apesar dos problemas evidentes, acredito, no entanto, que informação gera conhecimento e é o conhecimento que nos move, nos faz crescer, inovar, superar dificuldades, solucionar problemas.

Quem me contatou pelo Whatsapp naquele feriadão de 1º de maio, partiu do pressuposto de que eu estava ali, pronta em carne e osso para interagir e estabelecer uma relação “virtual” na qual pudéssemos trocar informações, ideias e bobagens. Portanto, ainda que alguns não admitam, todos já internalizamos que “estar ali” online é sinônimo de existir em diferentes lugares e tempos. Portanto, ainda que estivesse trancada em casa, mergulhada em pilhas de livros e no Word, se estivesse conectada, não estaria “sozinha”.

Obviamente, esta condição é excludente, pois somente metade do mundo tem acesso a dispositivos e Internet. Assim, como ficaria esta equação conexão = existência? Certamente precisamos debater isto, mas em outro momento.

Precisamos repensar a comunicação sob a perspectiva ecológica

Acaba de ser lançada a Revista Paulus dedicada à reflexão sobre a Comunicação. \o/

O tema de sua primeira edição é O Humano e a técnica: a questão da comunicação. Nela, o Prof. Massimo Di Felice do Centro de Pesquisa Atopos (ECA/USP) fala sobre a crise nas noções de humano, social, ambiente e técnica, exposta pelo digital que, por sua vez, ratifica a importância do pensamento ecológico (não antropocêntrico) para a melhor compreensão do mundo, assim como a necessária conscientização coletiva sobre as possibilidades construtivas e inteligentes na relação entre ser humano e tecnologia.

“Descobrimos portanto hoje que entre o que os gregos chamavam de natureza (phiusis), técnica (tekne) e humano (antropos) não há uma separação, mas há uma ecologia única que está em comunicação, em diálogo conectivo, no qual cada uma determina a transformação da outra” (p.132)

Para amantes e estudiosos da comunicação, tecnologia, digital, redes sociais e comportamento vale cada minuto da leitura desta entrevista.

Link aqui 👉 Redes digitais e significados da crise do Ocidente. Entrevista com Prof. Di Felice realizada por Marcella Schneider (Paulus).

Amiga, se for assediada, deixa pra lá. É Carnaval. #SQN

Órgãos governamentais têm a obrigação de fazer uma comunicação pública efetiva que informe a população sobre seus direitos e deveres, assim como esclareça seus passos, prestando conta de cada centavo que gasta do dinheiro público. Esta comunicação deve ainda servir para consultar a população antes de realizar intervenções importantes na cidade e na sua legislação. Em democracias mais maduras, a comunicação pública também incorporou à sua missão o dever de conscientizar a população sobre os direitos humanos como estratégia para eliminar toda forma de violência e preconceito.

Sem dúvida, as redes sociais têm contribuído para o fortalecimento da comunicação pública no mundo. No entanto, diferentemente do que muitos por aqui acreditam, atuar nas redes sociais institucionais exige conhecimento, consciência e profissionalismo. Comunicar nas redes não é fazer um meme engraçadinho para gerar alcance e like.

Nesta quarta, 22 de fevereiro de 2017, a Prefeitura de São Paulo lançou em seu Facebook a campanha #CarnavalSemAssédio que deveria conscientizar a população sobre a violência contra as mulheres. Deveria… Mas, no lugar disso, fez a seguinte “arte”:

carnaval sem assédio

Agora, analisem comigo (só precisa de um cérebro não machista para entender):

O Já acabou, Jéssica! faz menção a um vídeo de duas estudantes brigando que viralizou em 2015 [que coisa feia mulher brigando! aiaiai!] e o Briga estraga a folia. Agora é paz, amor e carnaval! sugerem que a mulher, caso seja assediada na folia, não brigue e “deixe pra lá”.

“Brincadeirinha” tipicamente machista dessas que aturamos todo dia, em especial, no Carnaval quando os foliões – coitados – não conseguem se controlar e ignoram o nosso não porque aprenderam assim numa campanha de cerveja.

Quando terminar o Carnaval pergunte para suas vizinhas, irmãs, primas, tias, amigas e companheiras se elas presenciaram ou sofreram assédio/violência “em paz” nos bloquinhos da vida.

Aos comunicadores da Prefeitura de São Paulo que não sabem muito bem o que é assédio, assim como não entendem que o silêncio só piora nossa condição de violadas, indico a leitura do Guia didático da diferença entre paquera e assédio pra você não ser um canalha no Carnaval feito pelas maravilhosas da Revista AzMina. Vai que dá tempo de criar outro meme para a campanha #CarnavalSemAssédio.