Net-ativismo: redes digitais e participação

As ruas estão silenciosas. Por mais atenta que esteja, confesso que não consigo decifrar os porquês. Ainda que tudo ao redor seja revoltante, indigno e assombrosamente criminoso no âmbito político. Nas redes até pipocam campanhas ali e aqui, mas nas ruas nos calamos. Hoje, somente movimentos organizados em torno dos direitos à moradia, às terras e dos direitos indígenas tentam, sem visibilidade midiática, lutar contra o que aí está.

Observação:

As gritas e censuras contra exposições e atividades artísticas e culturais não são movimento social nem “liberdade de expressão”…, mas excreção daquilo que pior existe nas sociedades.

Portanto:

O cenário atual é bastante distinto daqueles que vivemos em 2013, 2014, 2015 e 2016. Nada das “massas” com propósitos sociais.

Desde a Primavera Árabe (2010, sim já faz tudo isso), pesquisadores de todo mundo empenham-se em entender o impacto da tecnologia digital e das redes sociais na conformação sociocultural e nas estruturas político-econômicas de diversos países.

A primavera brasileira arrefeceu, esquentou de novo, se polarizou, e, neste momento, inexiste. Estou curiosa para saber o que acontecerá até outubro de 2018…

Para entender o presente e o futuro, é necessário recuperar o passado, esmiúça-lo, observar suas controvérsias, atores e atrizes, propósitos, conexões e práticas.

Em 2013, tive o prazer de participar do I Congresso Internacional de Netativismo, organizado pelo Centro Internacional de Pesquisa Atopos, cujas principais reflexões acabam de ser publicadas no livro Net-ativismo: redes digitais e novas práticas de participação, organizado por Massimo Di Felice, Eliete Pereira e Erick Roza, e distribuído pela Papirus Editora.

netativismo-redes digitais-participação-rackeando

A obra conta com artigos de pesquisadores da Argélia, Brasil, Colômbia, Egito, França, Itália, Líbia, México, Portugal e Tunísia, entre eles Lucia Santaella, Michel Maffesoli, Pierre Lévy e Stéphane Hugon. Cada qual à sua maneira faz amarrações teóricas e empíricas sobre como as redes sociais impactam a participação social e a política, em seus respectivos países.

Meu artigo, escrito em parceria com o amigo Erick Roza, recupera o emblemático movimento das Marchas das Vadias no Brasil, que luta pelos direitos das mulheres e pelo fim da cultura do estupro. Uma coletiva, nascida no Canadá, nas redes, espraiada pelas ruas do mundo, e caracterizada pela descentralização e apartidarismo.

Para aquelxs que se interessam pelo tema, boa leitura!

Anúncios

Comunicação Digital para ONGs: como fazer?

Entre 2011 e 2015, trabalhei como coordenadora de comunicação de duas importantes organizações não governamentais. Ambas influentes em suas áreas de atuação: o Instituto Sou Paz, reconhecido pelos projetos inovadores na segurança pública e prevenção da violência; e Católicas pelo Direito de Decidir, empenhada em transformar os padrões culturais e religiosos por meio do feminismo.

Quando fui convidada para assumir o trabalho nas duas entidades, meu principal desafio era: dar visibilidade para as ONGs no mundo digital, especialmente em suas redes sociais. Além de divulgar missões, valores e projetos de ambas, deveria contribuir com a captação de recursos, logo, com a sustentabilidade institucional.

O trabalho exigiu múltiplas ações coordenadas:

☑ Planejamento estratégico;

☑ Delineamento e relacionamento com diferentes públicos, incluindo atualização permanente do mailing institucional;

☑ Criação, curadoria e gestão de conteúdos (texto, infográficos, fotos, vídeos) e campanhas coerentes e de qualidade para todos os canais digitais (site, newsletter, Facebook, Twitter, You Tube);

☑ Boas práticas de SEO;

☑ Monitoramento, métricas e análise regular de todos os canais;

☑ Relações Públicas e produção de pautas para jornalistas;

☑ Busca e bom relacionamento com diferentes parceiros e prestadores de serviço;

☑ Estabelecimento de Cultura Comunicacional: media training e compartilhamento de boas práticas de comunicação com toda a equipe;

☑ Feedback permanente para supervisão direta, com relatórios, métricas e apontamentos sobre os pontos positivos e negativos das ações;

☑ Acompanhamento das notícias sobre temas – direta ou indiretamente – relacionados ao trabalho das instituições.

Sabe-se que as ONGs, diferentemente das empresas, não têm finalidade lucrativa, fato que impacta diretamente seus recursos financeiros e humanos. As equipes de comunicação, geralmente, são pequenas e, cotidianamente, precisam rever suas decisões, ações, cronogramas etc.

No entanto, com um trabalho bem coordenado e alinhado às inovações tecnológicas, é possível garantir excelentes resultados: milhares de acesso aos sites, aumento de seguidores com alto engajamento nas redes sociais, centenas de entrevistas na imprensa, conquistas de novos parceiros etc. Entrem nos canais dessas instituições e vejam com os próprios olhos.

Esta tarefa não foi fácil, afinal, temas tão caros à sociedade como segurança pública e direitos das mulheres e LGBTs, infelizmente, ainda são deturpados por vozes reacionárias, machistas e homofóbicas. Foi preciso desmitifica-los e traduzi-los para o grande público, atraindo, assim, potenciais adeptos e lovers que não conheciam os trabalhos das instituições.

Obviamente, este sucesso foi possível graças a todas as pessoas das equipes, especialmente dos excelentes jornalistas, designers, ilustradoras, fotógrafos e videomakers. No Sou da Paz, pude aprender e contar com o talento de Fernanda Ozilak, Fernando Freitas, Janaína Siqueira, Ligia RechenbergLuana Viegas e Rafael Telles Machado. Em Católicas, tive as parceiras Elisa Gargiulo e Luiza Kame.

A comunicação é essencial para a vida das ONGs, dos projetos e coletivos autônomos e ativistas de diversas frentes. Ela contribui para as mudanças de paradigmas sociais e transformação dos modos de ver o mundo.

Dá trabalho, é desafiador, mas vale muito, muito a pena. 😉

Fiquei desconectada e foi revelador

Fiquei desconectada do mundo por 72 horas. Quando uma mestranda está terminando sua dissertação, este movimento pode ser necessário. Precisava me concentrar na leitura e escrever a versão final para a revisão do orientador. Não tive dúvida: desliguei o smartphone.

Ao religar o tamagotchi, me deparei com centenas de mensagens diretas ou em grupos de amigos e familiares. Quem me escreveu, enviou foto, vídeo e áudio, pressupôs que eu estivesse “ali”, online. Além de conteúdos triviais (sim, amenidades também são conteúdo), me pediram favores, indicações, convidaram para atividades culturais e perguntaram: “Você está aí? Não responde, estou preocupada”. Entendo. Afinal, sou daquelas que está 24 horas conectada, não é à toa que estudo tecnologia…

Coincidentemente, logo após minha experiência, no dia 3 de maio, o Whatsapp saiu do ar por algumas horas no Brasil e outros países. Imediatamente, posts e memes nas redes sociais sugeriam às pessoas que aproveitassem a situação e voltassem a ter uma “vida social”.

Acho curiosas tais reações. Ao fazerem alusão à suposta alienação provocada pelo digital, afirmando que ele nos aparta, tais comentários simplesmente ignoram o fato de que não existe separação mais entre a “vida online” e off-line.

O digital entranhou-se de tal modo no social que ele nos expõe duas questões centrais: a) nossa disposição histórica e permanente à conexão interpessoal; b) que a tecnologia nos conforma tanto quanto qualquer rito social praticado/alterado até aqui.

É inegável que a profusão de informação na atualidade gera problemas como, por exemplo, transtorno de ansiedade. Há inúmeros estudos sobre tal impacto, especialmente nas ciências da saúde física e mental. Pudera, afinal, sem recalque pfvr, precisamos reconhecer que uma criatura que ainda usa somente 10% da sua capacidade mental, em alguma hora, vai dar pane com tanta informação. O filme Lucy, de Luc Besson, dá uma inspiração ficcional para o que poderia acontecer conosco se (quando?) pudéssemos alcançar este nível de processamento e conexão. Apesar dos problemas evidentes, acredito, no entanto, que informação gera conhecimento e é o conhecimento que nos move, nos faz crescer, inovar, superar dificuldades, solucionar problemas.

Quem me contatou pelo Whatsapp naquele feriadão de 1º de maio, partiu do pressuposto de que eu estava ali, pronta em carne e osso para interagir e estabelecer uma relação “virtual” na qual pudéssemos trocar informações, ideias e bobagens. Portanto, ainda que alguns não admitam, todos já internalizamos que “estar ali” online é sinônimo de existir em diferentes lugares e tempos. Portanto, ainda que estivesse trancada em casa, mergulhada em pilhas de livros e no Word, se estivesse conectada, não estaria “sozinha”.

Obviamente, esta condição é excludente, pois somente metade do mundo tem acesso a dispositivos e Internet. Assim, como ficaria esta equação conexão = existência? Certamente precisamos debater isto, mas em outro momento.

Precisamos repensar a comunicação sob a perspectiva ecológica

Acaba de ser lançada a Revista Paulus dedicada à reflexão sobre a Comunicação. \o/

O tema de sua primeira edição é O Humano e a técnica: a questão da comunicação. Nela, o Prof. Massimo Di Felice do Centro de Pesquisa Atopos (ECA/USP) fala sobre a crise nas noções de humano, social, ambiente e técnica, exposta pelo digital que, por sua vez, ratifica a importância do pensamento ecológico (não antropocêntrico) para a melhor compreensão do mundo, assim como a necessária conscientização coletiva sobre as possibilidades construtivas e inteligentes na relação entre ser humano e tecnologia.

“Descobrimos portanto hoje que entre o que os gregos chamavam de natureza (phiusis), técnica (tekne) e humano (antropos) não há uma separação, mas há uma ecologia única que está em comunicação, em diálogo conectivo, no qual cada uma determina a transformação da outra” (p.132)

Para amantes e estudiosos da comunicação, tecnologia, digital, redes sociais e comportamento vale cada minuto da leitura desta entrevista.

Link aqui 👉 Redes digitais e significados da crise do Ocidente. Entrevista com Prof. Di Felice realizada por Marcella Schneider (Paulus).

Nem tudo que é roxo é ficha-suja

A tecnologia não é [nunca foi] algo externo ao ser humano. Atualmente, inteligência artificial, algoritmos e dispositivos mostram-se superiores às capacidades e limitações humanas, mas não podemos esquecer que, para nascerem e se desenvolverem, dependem de nós.

No final da semana passada, me entusiasmei com o projeto Vigie Aqui do Instituto Reclame Aqui, um plugin que, quando baixado no Google Chrome, identifica políticos tidos como fichas-suja com uma tarja na cor roxa. Dado o cenário político que vivemos, imediatamente instalei a extensão no meu note.

Nesta segunda (12), navegando no LinkedIn vi o nome do amigo publicitário Marcelo Aguiar marcado com a tarja roxa e pensei: “que estranho”. Passei o cursor na tarja e abaixo dele um boxe se abriu com uma foto e dados de um homônimo. Hoje (14) aconteceu a mesma coisa com o amigo advogado Fernando de Freitas Leitão Torres que, nas redes sociais, se identifica somente como Fernando Torres. Avisados, ambos estão estudando medidas jurídicas cabíveis.

O “mundo virtual” não está dissociado do “mundo real”. No “mundo real”, frequentemente, vemos notícias sobre pessoas que enfrentam problemas com a justiça – e até são presas – por serem confundidas com homônimos que infringiram leis e cometeram crimes. Os idealizadores e executores do projeto Vigie Aqui não consideraram esta possibilidade? Têm ideia de que podem causar danos morais para estas pessoas?

Sou entusiasta da tecnologia digital, acredito que ela traz benefícios para a sociedade, entre eles o acesso à informação que contribui com a efetividade da transparência nas relações sociais, econômicas e políticas. No entanto, não basta ter boas ideias e intenções.

O digital é tão ou mais complexo que o “mundo real”, portanto, é preciso ter uma visão sistêmica, checar todas as controvérsias deste tipo de projeto, caso contrário, algo que seria de utilidade pública pode se converter em prejuízo para os principais interessados: a população.

Pensamos melhor coletivamente, a inteligência “artificial” idem. Não basta criar coisas que “pensam” sozinhas. Precisamos que o desenvolvimento tecnológico e seus projetos tragam soluções para nossos problemas e não o contrário.