A sobrevida do rádio

O estudo do Spotify sobre o poder do áudio nos faz refletir sobre o quão forte ainda é o rádio.

O guia fala sobre o inestimável potencial comercial da experiência metassensorial possibilitada pelo áudio: da onipresença; de como nosso corpo fica livre para fazer outras coisas e se deslocar – ainda que conectado à música, voz ou outros tipos de sons ao redor; da magia da construção de imagens na cabeça independentemente de estímulo visual; da intimidade etc.

As gigantes da tecnologia sabem disso, não à toa, algumas de suas inovações conciliam Data, Inteligência Artificial e? Áudio! Acionados pela voz, apps e dispositivos da Apple, Microsoft, Google, Amazon e cia. têm nos mostrado que a Samantha de Her não é coisa de ficção científica, pois já estamos como o Theodore do filme de Spike Jonze, ou seja, conversando com as coisas para nos comunicar, localizar e buscar por informação e entretenimento.

Mas, cá entre nós, analogicamente, o rádio promove experiência semelhante há mais de um século. A diferença é que nada era integrado nem física nem virtualmente. Nem nós, os dados ou dispositivos. Agora, o lance é entender como acompanhar tamanho desenvolvimento tecnológico, fazendo com que a pessoa sintonize ou baixe o app da rádio em vez do Spotify.

Enquanto não surgem grandes alterações em seus modelos de negócio, é preciso garantir a relevância do conteúdo. Se o que se produz é verídico, útil, está de acordo com o contexto sociocultural, entretém, faz sentido e responde às perguntas das pessoas, elas vão permanecer conectadas com o rádio. Neste sentido, é sintomático que, com o digital, as mídias, especialmente nos EUA e Europa, estejam apostando nos podcasts como forma de manter e angariar novos públicos. Neste processo, não abrem mão do scoop, no entanto, têm (re)descoberto que o que vai vender mesmo é: relevância!

A experiência digital nos lembra de que nossa fala é mais rápida do que mãos e olhos. E se nossa vida ficará cada vez mais hands and eyes free, tenho a esperança de que o rádio, fundador desta magia, terá sobrevida neste mar de possibilidades (e conflitos) que o digital impõe às mídias.

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Precisamos repensar a comunicação sob a perspectiva ecológica

Acaba de ser lançada a Revista Paulus dedicada à reflexão sobre a Comunicação. \o/

O tema de sua primeira edição é O Humano e a técnica: a questão da comunicação. Nela, o Prof. Massimo Di Felice do Centro de Pesquisa Atopos (ECA/USP) fala sobre a crise nas noções de humano, social, ambiente e técnica, exposta pelo digital que, por sua vez, ratifica a importância do pensamento ecológico (não antropocêntrico) para a melhor compreensão do mundo, assim como a necessária conscientização coletiva sobre as possibilidades construtivas e inteligentes na relação entre ser humano e tecnologia.

“Descobrimos portanto hoje que entre o que os gregos chamavam de natureza (phiusis), técnica (tekne) e humano (antropos) não há uma separação, mas há uma ecologia única que está em comunicação, em diálogo conectivo, no qual cada uma determina a transformação da outra” (p.132)

Para amantes e estudiosos da comunicação, tecnologia, digital, redes sociais e comportamento vale cada minuto da leitura desta entrevista.

Link aqui 👉 Redes digitais e significados da crise do Ocidente. Entrevista com Prof. Di Felice realizada por Marcella Schneider (Paulus).

Amiga, se for assediada, deixa pra lá. É Carnaval. #SQN

Órgãos governamentais têm a obrigação de fazer uma comunicação pública efetiva que informe a população sobre seus direitos e deveres, assim como esclareça seus passos, prestando conta de cada centavo que gasta do dinheiro público. Esta comunicação deve ainda servir para consultar a população antes de realizar intervenções importantes na cidade e na sua legislação. Em democracias mais maduras, a comunicação pública também incorporou à sua missão o dever de conscientizar a população sobre os direitos humanos como estratégia para eliminar toda forma de violência e preconceito.

Sem dúvida, as redes sociais têm contribuído para o fortalecimento da comunicação pública no mundo. No entanto, diferentemente do que muitos por aqui acreditam, atuar nas redes sociais institucionais exige conhecimento, consciência e profissionalismo. Comunicar nas redes não é fazer um meme engraçadinho para gerar alcance e like.

Nesta quarta, 22 de fevereiro de 2017, a Prefeitura de São Paulo lançou em seu Facebook a campanha #CarnavalSemAssédio que deveria conscientizar a população sobre a violência contra as mulheres. Deveria… Mas, no lugar disso, fez a seguinte “arte”:

carnaval sem assédio

Agora, analisem comigo (só precisa de um cérebro não machista para entender):

O Já acabou, Jéssica! faz menção a um vídeo de duas estudantes brigando que viralizou em 2015 [que coisa feia mulher brigando! aiaiai!] e o Briga estraga a folia. Agora é paz, amor e carnaval! sugerem que a mulher, caso seja assediada na folia, não brigue e “deixe pra lá”.

“Brincadeirinha” tipicamente machista dessas que aturamos todo dia, em especial, no Carnaval quando os foliões – coitados – não conseguem se controlar e ignoram o nosso não porque aprenderam assim numa campanha de cerveja.

Quando terminar o Carnaval pergunte para suas vizinhas, irmãs, primas, tias, amigas e companheiras se elas presenciaram ou sofreram assédio/violência “em paz” nos bloquinhos da vida.

Aos comunicadores da Prefeitura de São Paulo que não sabem muito bem o que é assédio, assim como não entendem que o silêncio só piora nossa condição de violadas, indico a leitura do Guia didático da diferença entre paquera e assédio pra você não ser um canalha no Carnaval feito pelas maravilhosas da Revista AzMina. Vai que dá tempo de criar outro meme para a campanha #CarnavalSemAssédio.

PewDiePie? No funny! Pergunte ao Google…

O caso do Youtuber mais bem pago do mundo, o sueco PewDiePie, certamente servirá de exemplo. De péssimo exemplo. Espero.

Como muitos Millennials, o “comediante” Felix Arvid Ulf Kjellberg se apropriou muito bem da tecnologia, compreendeu as potencialidades do digital, angariou fãs (53 milhões…) com seus vídeos de “humor”, se tornou um Digital Influencer. Um Midas Digital disputado por agências, mídias e empresas que faturava mais de US$ 24 milhões por ano em publicidade.

Mas… em alguns de seus vídeos nada havia de ouro muito menos ideias brilhantes, e sim mensagens nazistas e antissemitas. Logo após ser dedurado pelo The Wall Street Journal, Pew perdeu, numa tacada, os patrocínios e apoios da Disney, Google e You Tube.

Alguém vai dizer: “Tá vendo! Só tem porcaria na internet!”. Eu tiraria o “só”. Tem futilidade, discurso de ódio, injúria etc. sim, mas também tem um mundo de informação, conhecimento, cultura e entretenimento não preconceituoso.

Para o filósofo Gianni Vattimo, até meados do século passado, nossa vida estava encerrada em comunidades limitadas pelas geografias, leis e histórias produzidas e contadas somente pela elite (religiosa, política, econômica). O autor sugere que foram os mass media que romperam com tal hegemonia, permitindo que o povo conhecesse novos mundos e culturas. Apesar de otimista, o pensador reconhece que os interesses comerciais e políticos midiáticos, por vezes, contaminam a notícia…

Sou da turma de Vattimo e prefiro acreditar que o digital serve menos para os Pews e pewpetes da vida e mais o desenvolvimento sociocultural.

Nesta controvérsia digital, ainda que os gigantes da tecnologia (e da mídia) apostem milhões em Influencers com ideias duvidosas, eles também investem em campanhas em prol dos direitos humanos ou ainda se posicionam contra absurdos de nosso tempo como a autocracia discriminatória e excludente de Trump.

Se é só marketing em vez de real consciência social e histórica não sabemos, mas que, ao menos, sirvam de exemplo para parte da mídia brasileira que insiste em contratar falsos talentos como humoristas misóginos e homofóbicos, e jornalistas racistas que, definitivamente, depreciam nossa profissão.

Nem tudo que é roxo é ficha-suja

A tecnologia não é [nunca foi] algo externo ao ser humano. Atualmente, inteligência artificial, algoritmos e dispositivos mostram-se superiores às capacidades e limitações humanas, mas não podemos esquecer que, para nascerem e se desenvolverem, dependem de nós.

No final da semana passada, me entusiasmei com o projeto Vigie Aqui do Instituto Reclame Aqui, um plugin que, quando baixado no Google Chrome, identifica políticos tidos como fichas-suja com uma tarja na cor roxa. Dado o cenário político que vivemos, imediatamente instalei a extensão no meu note.

Nesta segunda (12), navegando no LinkedIn vi o nome do amigo publicitário Marcelo Aguiar marcado com a tarja roxa e pensei: “que estranho”. Passei o cursor na tarja e abaixo dele um boxe se abriu com uma foto e dados de um homônimo. Hoje (14) aconteceu a mesma coisa com o amigo advogado Fernando de Freitas Leitão Torres que, nas redes sociais, se identifica somente como Fernando Torres. Avisados, ambos estão estudando medidas jurídicas cabíveis.

O “mundo virtual” não está dissociado do “mundo real”. No “mundo real”, frequentemente, vemos notícias sobre pessoas que enfrentam problemas com a justiça – e até são presas – por serem confundidas com homônimos que infringiram leis e cometeram crimes. Os idealizadores e executores do projeto Vigie Aqui não consideraram esta possibilidade? Têm ideia de que podem causar danos morais para estas pessoas?

Sou entusiasta da tecnologia digital, acredito que ela traz benefícios para a sociedade, entre eles o acesso à informação que contribui com a efetividade da transparência nas relações sociais, econômicas e políticas. No entanto, não basta ter boas ideias e intenções.

O digital é tão ou mais complexo que o “mundo real”, portanto, é preciso ter uma visão sistêmica, checar todas as controvérsias deste tipo de projeto, caso contrário, algo que seria de utilidade pública pode se converter em prejuízo para os principais interessados: a população.

Pensamos melhor coletivamente, a inteligência “artificial” idem. Não basta criar coisas que “pensam” sozinhas. Precisamos que o desenvolvimento tecnológico e seus projetos tragam soluções para nossos problemas e não o contrário.

O futuro [pode ser] brilhante

Redes sociais [digitais] não trazem felicidade em três views, likes, comments ou shares. Evidente. Acho curiosa esta obsessão crítica sobre as redes como se elas tivessem sido criadas para trazer felicidade.

A imprensa nasceu para trazer felicidade? A fotografia? O cinema? O rádio? A TV?

Tudo bem que a origem belicosa das redes seja um fantasma, mas 60 anos depois de sua criação, muita coisa boa aconteceu, entre as quais destaco o acesso mais democrático à informação e a libertação – ainda que parcial – das amarras da indústria midiática e cultural.

[Alguns dirão ingenuidade, mas tudo bem também].

Nosedive, o 1º episódio da 3ª temporada de Black Mirror, mostra um futuro em que as relações interpessoais são – em todos os âmbitos, até mesmo dentro da família – mensuradas pelo smartphone a cada interação social. Ranqueadas numa escala de 1 a 5, as pessoas se diferenciam entre loosersoutsiders e winnersestabelecidos.

Para serem bem avaliadas e alçarem status, recalcam desejos, forjam alteridade, acentuam desigualdades, espalham preconceito, omitem-se diante de uma situação de injustiça etc. Fazem tudo mimeticamente. Práticas sociais infelizmente comuns, algumas típicas da tão desprezível meritocracia.

A tecnologia conduz a polifonia narrativa de Black Mirror. Correto? Correto. No entanto, os roteiros-hipérboles da série são geniais porque, como um espelho, expõem nossas fraturas socioculturais e comportamentais, independentemente da tecnologia. E isso sim é assustador.

Obviamente, precisamos questionar as lógicas de operação das redes digitais, suas consequências e problemas. No entanto, acredito que a perspectiva tecnofóbica em nada nos ajuda a entender, aprimorar ou até mesmo subverter a tecnologia. Precisamos nos desarmar para enxergar e explorar suas potencialidades, caso contrário nos aprisionaremos em fobias improdutivas e conservadoras.

Quando me deparo com críticas apocalípticas à tecnologia, apoiadas na narrativa de Black Mirror, penso duas coisas:

  1. Precisamos de mais espelhos.
  2. O futuro [pode ser] brilhante.

Nosedive vale cada minutinho. Curte aí.

Movies on demand no aconchego do lar

Até ontem o Google Play funcionou para mim como uma loja de apps. Ponto. Nunca consumi outros produtos por lá. Cliente da Netflix há cerca de três anos, acabei me acostumando com este ambiente. No entanto sabemos que, afora suas próprias produções e séries, o Netflix é bastante restrito quando o assunto são os lançamentos.

Desde julho estava com Mãe só há uma na cabeça. O buzz na rede e os lambes nas ruas do centro de São Paulo me despertaram esse desejo. Além disso, amo o trabalho da excepcional roteirista e diretora Anna Muylaert. Queria muito ter visto no cinema, não deu.

Por curiosidade, busquei o nome do filme do Google Play e bingo! Feliz, feliz, cumpri dois passos de cliques e voilá! Com R$ 6,90 debitados no crédito, passei bem meu sábado me deliciando com esta obra prima.

Passada a euforia da experiência, me peguei pensando: “nem todo mundo tem acesso aos dispositivos, internet, banda larga, cartão de crédito…”. Verdade. Ainda assim, precisamos assumir que este serviço é uma alternativa contra a enfadonha programação das TVs abertas, assim como uma solução mais barata do que o ingresso no cinema.

Alguém dirá que a experiência sensorial no cinema é diferente. Concordo. Mas, às vezes, movies on demand no aconchego do lar também pode ser bem legal.

Mais sobre esta lindeza de filme: https://www.facebook.com/maesohauma/
#maesohauma