PewDiePie? No funny! Pergunte ao Google…

O caso do Youtuber mais bem pago do mundo, o sueco PewDiePie, certamente servirá de exemplo. De péssimo exemplo. Espero.

Como muitos Millennials, o “comediante” Felix Arvid Ulf Kjellberg se apropriou muito bem da tecnologia, compreendeu as potencialidades do digital, angariou fãs (53 milhões…) com seus vídeos de “humor”, se tornou um Digital Influencer. Um Midas Digital disputado por agências, mídias e empresas que faturava mais de US$ 24 milhões por ano em publicidade.

Mas… em alguns de seus vídeos nada havia de ouro muito menos ideias brilhantes, e sim mensagens nazistas e antissemitas. Logo após ser dedurado pelo The Wall Street Journal, Pew perdeu, numa tacada, os patrocínios e apoios da Disney, Google e You Tube.

Alguém vai dizer: “Tá vendo! Só tem porcaria na internet!”. Eu tiraria o “só”. Tem futilidade, discurso de ódio, injúria etc. sim, mas também tem um mundo de informação, conhecimento, cultura e entretenimento não preconceituoso.

Para o filósofo Gianni Vattimo, até meados do século passado, nossa vida estava encerrada em comunidades limitadas pelas geografias, leis e histórias produzidas e contadas somente pela elite (religiosa, política, econômica). O autor sugere que foram os mass media que romperam com tal hegemonia, permitindo que o povo conhecesse novos mundos e culturas. Apesar de otimista, o pensador reconhece que os interesses comerciais e políticos midiáticos, por vezes, contaminam a notícia…

Sou da turma de Vattimo e prefiro acreditar que o digital serve menos para os Pews e pewpetes da vida e mais o desenvolvimento sociocultural.

Nesta controvérsia digital, ainda que os gigantes da tecnologia (e da mídia) apostem milhões em Influencers com ideias duvidosas, eles também investem em campanhas em prol dos direitos humanos ou ainda se posicionam contra absurdos de nosso tempo como a autocracia discriminatória e excludente de Trump.

Se é só marketing em vez de real consciência social e histórica não sabemos, mas que, ao menos, sirvam de exemplo para parte da mídia brasileira que insiste em contratar falsos talentos como humoristas misóginos e homofóbicos, e jornalistas racistas que, definitivamente, depreciam nossa profissão.

Anúncios

Nem tudo que é roxo é ficha-suja

A tecnologia não é [nunca foi] algo externo ao ser humano. Atualmente, inteligência artificial, algoritmos e dispositivos mostram-se superiores às capacidades e limitações humanas, mas não podemos esquecer que, para nascerem e se desenvolverem, dependem de nós.

No final da semana passada, me entusiasmei com o projeto Vigie Aqui do Instituto Reclame Aqui, um plugin que, quando baixado no Google Chrome, identifica políticos tidos como fichas-suja com uma tarja na cor roxa. Dado o cenário político que vivemos, imediatamente instalei a extensão no meu note.

Nesta segunda (12), navegando no LinkedIn vi o nome do amigo publicitário Marcelo Aguiar marcado com a tarja roxa e pensei: “que estranho”. Passei o cursor na tarja e abaixo dele um boxe se abriu com uma foto e dados de um homônimo. Hoje (14) aconteceu a mesma coisa com o amigo advogado Fernando de Freitas Leitão Torres que, nas redes sociais, se identifica somente como Fernando Torres. Avisados, ambos estão estudando medidas jurídicas cabíveis.

O “mundo virtual” não está dissociado do “mundo real”. No “mundo real”, frequentemente, vemos notícias sobre pessoas que enfrentam problemas com a justiça – e até são presas – por serem confundidas com homônimos que infringiram leis e cometeram crimes. Os idealizadores e executores do projeto Vigie Aqui não consideraram esta possibilidade? Têm ideia de que podem causar danos morais para estas pessoas?

Sou entusiasta da tecnologia digital, acredito que ela traz benefícios para a sociedade, entre eles o acesso à informação que contribui com a efetividade da transparência nas relações sociais, econômicas e políticas. No entanto, não basta ter boas ideias e intenções.

O digital é tão ou mais complexo que o “mundo real”, portanto, é preciso ter uma visão sistêmica, checar todas as controvérsias deste tipo de projeto, caso contrário, algo que seria de utilidade pública pode se converter em prejuízo para os principais interessados: a população.

Pensamos melhor coletivamente, a inteligência “artificial” idem. Não basta criar coisas que “pensam” sozinhas. Precisamos que o desenvolvimento tecnológico e seus projetos tragam soluções para nossos problemas e não o contrário.

O futuro [pode ser] brilhante

Redes sociais [digitais] não trazem felicidade em três views, likes, comments ou shares. Evidente. Acho curiosa esta obsessão crítica sobre as redes como se elas tivessem sido criadas para trazer felicidade.

A imprensa nasceu para trazer felicidade? A fotografia? O cinema? O rádio? A TV?

Tudo bem que a origem belicosa das redes seja um fantasma, mas 60 anos depois de sua criação, muita coisa boa aconteceu, entre as quais destaco o acesso mais democrático à informação e a libertação – ainda que parcial – das amarras da indústria midiática e cultural.

[Alguns dirão ingenuidade, mas tudo bem também].

Nosedive, o 1º episódio da 3ª temporada de Black Mirror, mostra um futuro em que as relações interpessoais são – em todos os âmbitos, até mesmo dentro da família – mensuradas pelo smartphone a cada interação social. Ranqueadas numa escala de 1 a 5, as pessoas se diferenciam entre loosersoutsiders e winnersestabelecidos.

Para serem bem avaliadas e alçarem status, recalcam desejos, forjam alteridade, acentuam desigualdades, espalham preconceito, omitem-se diante de uma situação de injustiça etc. Fazem tudo mimeticamente. Práticas sociais infelizmente comuns, algumas típicas da tão desprezível meritocracia.

A tecnologia conduz a polifonia narrativa de Black Mirror. Correto? Correto. No entanto, os roteiros-hipérboles da série são geniais porque, como um espelho, expõem nossas fraturas socioculturais e comportamentais, independentemente da tecnologia. E isso sim é assustador.

Obviamente, precisamos questionar as lógicas de operação das redes digitais, suas consequências e problemas. No entanto, acredito que a perspectiva tecnofóbica em nada nos ajuda a entender, aprimorar ou até mesmo subverter a tecnologia. Precisamos nos desarmar para enxergar e explorar suas potencialidades, caso contrário nos aprisionaremos em fobias improdutivas e conservadoras.

Quando me deparo com críticas apocalípticas à tecnologia, apoiadas na narrativa de Black Mirror, penso duas coisas:

  1. Precisamos de mais espelhos.
  2. O futuro [pode ser] brilhante.

Nosedive vale cada minutinho. Curte aí.

Movies on demand no aconchego do lar

Até ontem o Google Play funcionou para mim como uma loja de apps. Ponto. Nunca consumi outros produtos por lá. Cliente da Netflix há cerca de três anos, acabei me acostumando com este ambiente. No entanto sabemos que, afora suas próprias produções e séries, o Netflix é bastante restrito quando o assunto são os lançamentos.

Desde julho estava com Mãe só há uma na cabeça. O buzz na rede e os lambes nas ruas do centro de São Paulo me despertaram esse desejo. Além disso, amo o trabalho da excepcional roteirista e diretora Anna Muylaert. Queria muito ter visto no cinema, não deu.

Por curiosidade, busquei o nome do filme do Google Play e bingo! Feliz, feliz, cumpri dois passos de cliques e voilá! Com R$ 6,90 debitados no crédito, passei bem meu sábado me deliciando com esta obra prima.

Passada a euforia da experiência, me peguei pensando: “nem todo mundo tem acesso aos dispositivos, internet, banda larga, cartão de crédito…”. Verdade. Ainda assim, precisamos assumir que este serviço é uma alternativa contra a enfadonha programação das TVs abertas, assim como uma solução mais barata do que o ingresso no cinema.

Alguém dirá que a experiência sensorial no cinema é diferente. Concordo. Mas, às vezes, movies on demand no aconchego do lar também pode ser bem legal.

Mais sobre esta lindeza de filme: https://www.facebook.com/maesohauma/
#maesohauma

Spectacles: o show imagético das coisas inteligentes

As imagens orientam nossa experiência digital. Dentre os formatos possíveis de conteúdo, são elas as que mais estimulam a interação e engajamento social nas redes. Com ou sem conhecimento específico, produzimos e compartilhamos fotos e vídeos de tudo que fazemos cotidianamente. Os [smart]phones, apps editores de imagem e paus de selfie são nossos grandes aliados nesta empreitada. O apego com as imagens é tamanho que alguns chegam a arriscar a própria vida pela melhor selfie.

Entre as redes que vivem prioritariamente das imagens, o Snap saiu na frente com uma inovação que pode alterar substancialmente o mercado tecnológico-comunicativo e o modo como as pessoas registram e compartilham as imagens em seu dia-a-dia.

Os Spectacles – óculos inteligentes, sensíveis ao toque e conectados à internet –gravarão vídeos de até 30 segundos para serem compartilhados em tempo real no app. Ainda que externo ao corpo, o dispositivo lembra o episódio The Entire History of You da primeira temporada da Black Mirror, em que as pessoas híbridas têm olhos-câmeras, cujas imagens-memórias gravadas podem ser recuperadas ou deletadas.

Só com os smartphones, estimava-se que, em 2017, tiraríamos cerca de 1.7 trilhão de fotos… Considerando que o dispositivo vai herdar toda expectativa que o Google Glass frustrou e que a ficção científica plantou… o número de imagens produzidas e compartilhadas na rede irá aumentar… e muito.

Em A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, Walter Benjamin defendeu que a fotografia e o cinema alterariam nossa percepção, provocando um deslocamento espaço-temporal inédito, na medida em que nos teriam apresentando novas culturas e formas de viver e estar no mundo, nos libertando – ainda que parcialmente – dos limites territoriais, domésticos e laborais.

O que o autor alemão diria sobre este futuro em que as imagens serão produzidas por objetos inteligentes e tão elementares como os óculos?

Site oficial: https://spectacles.com/

Canal no You Tube: https://www.youtube.com/channel/UC9YFcJXrGv2QaWbXLq6VN3g

Vc pode substituir seu preconceito por inteligência, por exemplo.

Foto divulgação: Da esquerda para direita: Cléo Pires, Renato Leite atleta do vôlei sentado, Paulo Vilhena e Bruna Alexandre atleta do tênis de mesa. 

Polêmica e controversa. Foram esses os adjetivos usados pela média da mídia para se referir a campanha da África para a Vogue Brasil em prol das Paraolimpíadas. Como a campanha, tais palavrinhas estão para lá de equivocadas porque o termo correto, caros colegas jornalistas, é PRECONCEITUOSA mesmo.

Em geral, quando o profissional de comunicação age sem refletir sobre sua função social, seu trabalho emana machismo, homofobia, xenofobia, racismo, capacitismo e todo tipo de preconceito.

Mas a campanha foi tão horrorosa que, aqui com meus botões, penso: “como foi possível que essa ideia tenha passado por tanta gente e ninguém percebeu isso?”

Obviamente, quem trabalha numa redação ou agência está, como parte da sociedade, contaminada por preconceitos como, por exemplo, a ideia de que pessoas com corpos e mentes diferentes são anormais, incompletas, incapazes, x. No entanto, para aqueles que desejam trabalhar com comunicação, sugiro que vá além dessa mediocridade umbilical, pois é preciso inteligência e reflexão sobre a diversidade e as controvérsias da vida social. Só assim é possível comunicar com qualidade.

Outra dica é: respeite seu interlocutor, pois, diferentemente do que pregam os arrogantes, o público é inteligente e não engole mais calado as fórmulas dissimuladas, irreais, fora do contexto ainda praticadas no jornalismo, publicidade e propaganda. Com o digital, as pessoas têm jogado essa desfaçatez no ventilador das redes.

Vogue, África, Cléo Pires e a comunicação do Comitê Paraolímpico Brasileiro podem até jurar boas intenções aos quatro ventos, mas não adianta porque a campanha foi péssima. Nestas horas, convém autocrítica, um pedido de desculpa ou o silêncio mesmo, porque qualquer coisa é melhor do que o vídeo da Cléo dizendo “Nós, como embaixadores, emprestamos a nossa imagem justamente para gerar visibilidade e é isso que a gente tá fazendo. Meu Deus!”

Moça e todxs, para se dar visibilidade ao outro, é preciso ouvir o outro, dar voz ao outro, mostrar o outro e não photoshopar um outro fingindo ser o outro.

O pessoal da Channel 4, por exemplo, queria dar visibilidade para os atletas britânicos e fez essa campanha aí. Dá uma olhada.

PS: Parem com essa hashtag hipócrita disfarçada de empatia e alteridade #SomosTodosAlgumaCoisa. Ô coisa irritante. Já deu.

Controvérsias olímpicas

Vai ter:

Clichês padrão plim plim que ninguém aguenta mais, mas vai ter arte, cultura, criatividade e beleza.

Performance toda errada da Anitta, mas vai ter Paulinho, Karol Conká, MC Sofia, Caetano, Gil e Elza cantando Ossanha pro traidor.

Milico hasteando bandeira, mas vai ter Lea T, Fabíola Fontenelle e Maria Eduarda Menezes puxando o bonde do rolê.

Comentarista padrão Machista-Waack de monte, mas vai ter Giseles, Sarahs e Martas lacrando a cara deles.

Atleta errando pacas e voltando pra casa sem nada, mas vai ter atleta maravilhosx se superando, ganhando medalha e fazendo a alegria da galera.

Repressão ao povo de luta, mas vai continuar tendo povo que luta.

Vai ter [ainda] Temer, mas vai ter gente linda vaiando Temer.

Críticas são inevitáveis e necessárias porque, afinal, muita coisa errada rolou pra este evento acontecer. As pessoas expulsas de suas casas que o digam.

Mas… urubuzar a galera que ralou pra chegar até aqui, aí não dá, Cornelius! Porque tudo que nossos Vanderleis não precisam neste momento é de [mais] boicote.

Então, na boa, torce aí pra tudo dar certo, o Brasil bater recordes, nada de ruim acontecer [mais] nem durante nem depois da paradinha.