8 de Março e suas “homenagens”

O 8 de Março é um dia especial. Dia em que milhares de mulheres no mundo vão às ruas para reivindicar nossos direitos e promover atividades para ratificar nossa sororidade e comemorar nossas conquistas.

Estas conquistas são fruto da luta histórica e do engajamento político das trabalhadoras, urbanas e rurais, das acadêmicas e cientistas, das feministas, das donas de casa. Todas!

São fruto da resistência combativa das mulheres negras, indígenas, lésbicas, bissexuais, transexuais que, apesar do machismo, racismo e homofobia estrutural, não se calam, enfrentam e seguem abrindo portas para si e para as outras.

Mas 8 de Março também é dia de aturarmos as acintosas e patéticas “homenagens” de algumas empresas e instituições públicas que até agora – no caso 2018 – não entenderam nada.

Chovem memes, cartazes e vídeos institucionais enaltecendo nossas “qualidades”, “beleza”, “brilho”, “resiliência nata”, “intuição”, “sensibilidade”, “alegria”, nossa capacidade de girar 500 pratos ao mesmo tempo com “sorriso no rosto”. 🙄

Recebi algumas dessas “deferências” no meu WhatsApp, mas duas em particular me chamaram a atenção: a da Secretaria da Família e Desenvolvimento Social/ Coordenação da Política da Mulher de Curitiba e o “singelo” aviso na entrada do Pão de Açúcar da Vila Suzana, em São Paulo. Ei-las abaixo:

Cílios no semáforo, senhores?
Deus nos criou meladas com mel e pitadinha de sal?

Gente… não temos mais paciência para este tipo de coisa, sabe?

Por que não se contentam em fazer o básico? Leia-se: pagar um salário decente; promover equidade salarial; respeitar a carga horária acordada e os direitos trabalhistas; garantir licença maternidade e creche; coibir e penalizar qualquer tipo de assédio e outras formas de violência; dar voz de decisão; reconhecer e valorizar nossa opinião; respeitar nosso modo de ser e de vestir; nossa tanta coisa para fazer…

Para além disso ☝, se a instituição entende ser importante fazer uma homenagem (de verdade) no dia 8 de março, dialogue com as mulheres e certifique-se de que sua “ideia brilhante” valoriza nossa luta histórica por direitos e não reforça estereótipos.

👉 A foto maravilhosa da capa deste post é da amiga fotógrafa Claudia Ferreira que há décadas registra os movimentos das mulheres no Brasil. Claudia e a jornalista Claudia Bonan são autoras do banco de imagens Mulheres e Movimentos.

 

Anúncios

Amiga, se for assediada, deixa pra lá. É Carnaval. #SQN

Órgãos governamentais têm a obrigação de fazer uma comunicação pública efetiva que informe a população sobre seus direitos e deveres, assim como esclareça seus passos, prestando conta de cada centavo que gasta do dinheiro público. Esta comunicação deve ainda servir para consultar a população antes de realizar intervenções importantes na cidade e na sua legislação. Em democracias mais maduras, a comunicação pública também incorporou à sua missão o dever de conscientizar a população sobre os direitos humanos como estratégia para eliminar toda forma de violência e preconceito.

Sem dúvida, as redes sociais têm contribuído para o fortalecimento da comunicação pública no mundo. No entanto, diferentemente do que muitos por aqui acreditam, atuar nas redes sociais institucionais exige conhecimento, consciência e profissionalismo. Comunicar nas redes não é fazer um meme engraçadinho para gerar alcance e like.

Nesta quarta, 22 de fevereiro de 2017, a Prefeitura de São Paulo lançou em seu Facebook a campanha #CarnavalSemAssédio que deveria conscientizar a população sobre a violência contra as mulheres. Deveria… Mas, no lugar disso, fez a seguinte “arte”:

carnaval sem assédio

Agora, analisem comigo (só precisa de um cérebro não machista para entender):

O Já acabou, Jéssica! faz menção a um vídeo de duas estudantes brigando que viralizou em 2015 [que coisa feia mulher brigando! aiaiai!] e o Briga estraga a folia. Agora é paz, amor e carnaval! sugerem que a mulher, caso seja assediada na folia, não brigue e “deixe pra lá”.

“Brincadeirinha” tipicamente machista dessas que aturamos todo dia, em especial, no Carnaval quando os foliões – coitados – não conseguem se controlar e ignoram o nosso não porque aprenderam assim numa campanha de cerveja.

Quando terminar o Carnaval pergunte para suas vizinhas, irmãs, primas, tias, amigas e companheiras se elas presenciaram ou sofreram assédio/violência “em paz” nos bloquinhos da vida.

Aos comunicadores da Prefeitura de São Paulo que não sabem muito bem o que é assédio, assim como não entendem que o silêncio só piora nossa condição de violadas, indico a leitura do Guia didático da diferença entre paquera e assédio pra você não ser um canalha no Carnaval feito pelas maravilhosas da Revista AzMina. Vai que dá tempo de criar outro meme para a campanha #CarnavalSemAssédio.