WhatsApp: solução ou problema?

O WhatsApp é o aplicativo mais usado pelos brasileiros, segundo a pesquisa Conecta do Ibope Inteligência.

A ampla adesão ao app é resultado de seu principal benefício: facilitar a comunicação entre as pessoas.

Mas… às vezes… essa comunicação é pra lá de torta… E a culpa, no meu entendimento, não é da tecnologia…

De todos os debates em torno do uso do WhatsApp, gostaria de destacar 4 que têm me chamado a atenção recentemente.

Faço parte de alguns grupos: amigos, família, networking, jobs.

Neles, eventualmente, ocorrem desentendimentos decorrentes de práticas sociais nocivas e improdutivas. Vamos a elas:

#pré-conceito

Gente que julga e acusa os outros permanentemente, retrucando mensagens de forma agressiva.

Gente que compartilha piadas machistas, homofóbicas, racistas e preconceituosas em geral.

Gente que insulta quem pensa diferente dela. [com este cenário político então…]

#desrespeito à privacidade

Gente que dá print em conversas super privadas e compartilha tais imagens indiscriminadamente, sem pedir autorização.

Gente que compartilha áudios que eram privados, pessoais.

#disseminação de fake news

Gente que compartilha informações e notícias sem checar sua veracidade e procedência.

#despropósito

Gente que reiteradamente compartilha conteúdos alheios aos objetivos do grupo.

😒👎

A tecnologia por si só não incentiva diretamente a discriminação, o desrespeito, a fofoca, as intenções escusas…

São as pessoas que fazem isso desde que o mundo é mundo.

Por este motivo, acredito que cabe a nós refletirmos sobre nossas práticas, nos questionarmos sobre se queremos ou não contribuir positivamente com nossas comunidades, e nos conscientizarmos de que a vida digital requer alteridade, pois o potencial da rede deve ser solução e não problema.

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Fiquei desconectada e foi revelador

Fiquei desconectada do mundo por 72 horas. Quando uma mestranda está terminando sua dissertação, este movimento pode ser necessário. Precisava me concentrar na leitura e escrever a versão final para a revisão do orientador. Não tive dúvida: desliguei o smartphone.

Ao religar o tamagotchi, me deparei com centenas de mensagens diretas ou em grupos de amigos e familiares. Quem me escreveu, enviou foto, vídeo e áudio, pressupôs que eu estivesse “ali”, online. Além de conteúdos triviais (sim, amenidades também são conteúdo), me pediram favores, indicações, convidaram para atividades culturais e perguntaram: “Você está aí? Não responde, estou preocupada”. Entendo. Afinal, sou daquelas que está 24 horas conectada, não é à toa que estudo tecnologia…

Coincidentemente, logo após minha experiência, no dia 3 de maio, o Whatsapp saiu do ar por algumas horas no Brasil e outros países. Imediatamente, posts e memes nas redes sociais sugeriam às pessoas que aproveitassem a situação e voltassem a ter uma “vida social”.

Acho curiosas tais reações. Ao fazerem alusão à suposta alienação provocada pelo digital, afirmando que ele nos aparta, tais comentários simplesmente ignoram o fato de que não existe separação mais entre a “vida online” e off-line.

O digital entranhou-se de tal modo no social que ele nos expõe duas questões centrais: a) nossa disposição histórica e permanente à conexão interpessoal; b) que a tecnologia nos conforma tanto quanto qualquer rito social praticado/alterado até aqui.

É inegável que a profusão de informação na atualidade gera problemas como, por exemplo, transtorno de ansiedade. Há inúmeros estudos sobre tal impacto, especialmente nas ciências da saúde física e mental. Pudera, afinal, sem recalque pfvr, precisamos reconhecer que uma criatura que ainda usa somente 10% da sua capacidade mental, em alguma hora, vai dar pane com tanta informação. O filme Lucy, de Luc Besson, dá uma inspiração ficcional para o que poderia acontecer conosco se (quando?) pudéssemos alcançar este nível de processamento e conexão. Apesar dos problemas evidentes, acredito, no entanto, que informação gera conhecimento e é o conhecimento que nos move, nos faz crescer, inovar, superar dificuldades, solucionar problemas.

Quem me contatou pelo Whatsapp naquele feriadão de 1º de maio, partiu do pressuposto de que eu estava ali, pronta em carne e osso para interagir e estabelecer uma relação “virtual” na qual pudéssemos trocar informações, ideias e bobagens. Portanto, ainda que alguns não admitam, todos já internalizamos que “estar ali” online é sinônimo de existir em diferentes lugares e tempos. Portanto, ainda que estivesse trancada em casa, mergulhada em pilhas de livros e no Word, se estivesse conectada, não estaria “sozinha”.

Obviamente, esta condição é excludente, pois somente metade do mundo tem acesso a dispositivos e Internet. Assim, como ficaria esta equação conexão = existência? Certamente precisamos debater isto, mas em outro momento.